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Conto: Vovó Bilíngue.com

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Aqui estou eu, em mais uma etapa da minha vida. Com os meus 64 anos, decidi aprender um novo idioma. Talvez alguns me rotulem como “velha louca”, como meu filho, Igor. Não deve lembrar que foi a mesma “velha louca” que o levou a escola no seu primeiro dia e que teve de ficar para assistir a aula junto com ele, pois não parava de chorar.

Bom, mas é assim mesmo. Eu não posso mudar as coisas e nem tampouco o estigma que as pessoas têm sobre os mais velhos. Na verdade, eu não me importava com esses comentários indesejados sobre meu jeito lento de andar e minhas mãos agora, já um tanto trêmulas. Eu não guardava rancor nem mesmo pelo meu filho ingrato.

 

Até aquele dia.

 

– Com licença, poderia me informar qual é a minha turma? – Vi uma outra senhora ir até a secretaria do curso fazer a mesma pergunta que eu tinha feito, logo que cheguei.

A moça respondia de modo debochado, olhava para o computador a sua frente enquanto falava com a outra mulher.

– A senhora pode ficar sentada aí, enquanto a professora chega.

Eu estava sentada do lado oposto da pequena senhorinha. Ela aparentava ser mais velha do que eu, tinha quase seus 70 anos. Usava um vestido preto e aquelas ‘sandalinhas de vó’, como minha neta Bianca, costuma chamar.

Fiquei apenas observando aquela senhora pela meia hora que se seguiu. Ela não olhou para mim uma única vez, pois mantinha seus olhos arregalados para a recepção. Suas mãos apoiadas no colo e pés apontados para a saída estavam como que prontos, para sair dali.

Os jovens passavam e olhavam para ela, com risinhos e outros desviavam até mesmo o rosto. Umas meninas passaram por mim, que estava do outro lado em uma ponta oposta à da senhorinha. Elas param em frente para beber água e então, uma delas falou sarcasticamente para as outras:

– Inglês para a terceira idade? Gente. . . isso é uma judiação!

E então, outra disse:

– Por que? Vai que eles aprendem a serem ‘more polite! “

Eu não entendi o que ela tinha dito, mas lembrei de conferir no celular, o que aquela palavra significava. Bianca tinha baixado para mim um tradutor. Vi que ‘polite’ significa ‘educado’. Por um momento, não entendi o porquê de falarem aquilo, até que uma terceira falou por todas:

– Eu não ligo, com tanto que tirem esses velhos de casa, já é um alívio. Lá em casa, temos de fazer tudo por eles, vou já ligar para a minha mãe pedindo que matricule também o meu avô. Será que eles têm aulas todos os dias na semana? – E as três saíram rindo maldosamente.

Não sei porque, mas me senti culpada com aquele comentário. Será que minha família pensava o mesmo quando eu saía de casa? Fiquei tão envolvida com aqueles pensamentos que não percebi quando a professora chegou.

Era uma jovem, mediana e loira, com uma frase que circulava todo o seu braço. Tentei ler para saber o que era, mas não conseguir enxergar muito bem, outro benefício da idade.

Ela entrou tão apressada na sala que não me viu sentada ali. Então continuei sentada e quando tomei forças para levantar, porque sentar por muito tempo incomoda a minha coluna, sinto meus pés já apoiarem parcialmente o peso do meu corpo, a professora sai da sala com a mesma velocidade com que entrou.

Começou a questionar a secretária, ainda em frente ao computador enquanto falava, e eu voltei a sentar.

– O que significa aquilo? Estão brincando comigo, não é?

A secretária apenas olhou de soslaio para ela e disse:

– Ué, não foi para ensinar que você se formou, teacher? Seus alunos já estão esperando.

A professora ficou ainda mais frustrada. Tirou os óculos da cara e limpou o rosto, esfregando bem os olhos e assim partiu rumo a coordenação do curso.

– Mas eu não sei o que fazer com eles! – Só consegui ouvir isso.

Depois ela voltou, respirou fundo e entrou na sala, ainda reclamando baixinho.

Em seguida, eu finalmente me levantei e por alguns instantes, cogitei a ideia de ir embora daquele lugar e nunca mais voltar ou fazer qualquer tipo de curso de idiomas. Sair correndo era o que eu queria quando fiquei encarando a saída em vez da porta da sala de aula. (Claro que o mais perto do verbo ‘Correr’ que uma senhora de 64 anos conseguisse) Mas decidi entrar e assistir a minha aula, a qual foi dada num tom monótono pela jovem professora, parecia ela, que era a senhora ali.

Fiquei imaginando o que aquelas três meninas diriam se entrassem naquela sala durante a nossa aula:

– O ar aqui está tão velho que até a professora ganhou uns anos a mais nessas duas horas.

Logo tirei aquela ideia da cabeça para manter a concentração na aula. E até que consegui aprender bastante coisa! Quem diria. . .

Depois de dois anos e meio, me formei. Agora ando pelas ruas de New York com meu vestido tigresa e meus óculos escuros. Posso até ser uma velha doida e ouvir as péssimas coisas que as pessoas dizem a respeito da minha idade, mas nunca vou desistir de aprender, nunca é tarde demais para fazer isso. Não foi tarde pra mim e nem é para você!

Afinal, idade, é só um estado de espírito, como dizem! Então, podem me chamar de velha maluca e até que eu seja mesmo, mas acima de tudo, sou uma velhinha maluca e BILÍNGUE!

E assim foi como eu aprendi inglês e vocês, meus ‘netinhos’? Deixem nos comentários abaixo e não deixem de usar a TAG: #VovóBilingue.Com

Vejo vocês na terça! / See you on Tuesday!

 

Postado no dia 25/01 às 10:30 p.m – Blog: Vovó Bilíngue.com

 

                                                                            PRISCILA QUÉZIA AZEVEDO

13 comentários em “Conto: Vovó Bilíngue.com

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