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Conto: A escolha

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– Alice, não vá muito longe!

Minha mãe sempre pedia isso quando eu ia andar de bicicleta.  E eu sempre a obedeci, pedalava pelo quarteirão e ia até perto da ponte a qual fazia divisa entre os dois distritos da cidade.

E foi em uma dessas tardes, com o céu alaranjado, que o conheci. Era um menino magrinho, dos cabelos espichados em sua bicicleta marcada por arranhões na pintura.

Nos falávamos pouco, mas desde o primeiro dia que nossas rodas se encontraram, pedalávamos todos os dias ali, eu do meu lado da ponte e ele do outro. 

Esse era o problema, éramos de mundos opostos, nossas mães não permitiam que passássemos para o lado oposto ao nosso distrito. Mas para nós, aquela era uma situação suportável. Até que ele começou a brincar com outras garotas, com bicicletas mais velozes e algumas mais bonitas do que a minha.

Naquela época, eu não entendi o porquê de ele ter me trocado assim tão, fácil. Talvez porque as outras garotas eram do lado dele da ponte e assim ficava mais fácil de se interagir. Eu tentava acreditar em mil e uma hipóteses para ele ter me deixado. Éramos amigos e ele gostava muito da nossa amizade, mesmo que de longe.

Então eu pensava nas palavras dele: “Amigos não deixam amigos. ” Por isso, eu continuava a voltar para o nosso ponto de encontro, porém, tudo o que eu via, era Dito (apelidaram ele assim) descendo rua abaixo com suas novas amigas. Aquilo doía, até que um dia, não doeu mais.

. . .

Alguns anos se passaram e eu nunca mais havia pedalado junto com Dito. Eu o via algumas vezes, em sua bicicleta, fazendo entregas para a mãe, a qual era comerciante.

Em um entardecer, Dito bate a minha porta, com uma encomenda.

– Oi. – Disse ele.

– Oi. – Respondi.

Fazia muito tempo que não nos falávamos, mas naquele momento, todas as nossas lembranças voltaram. Senti um nó na garganta com aquela situação bastante “comum”. Dito estava mais alto, uns centímetros a mais do que eu, mas ainda esbelto. Seu cabelo agora, estava bem cortado e penteado.

Quis tocar sua cabeça, contudo, lembrei que não tinha nenhuma intimidade ou até mesmo familiaridade, para fazer tal gesto em Dito.

– Eu te vi um outro dia, no centro, mas você saiu tão rápido que não consegui dizer oi, Oi. De novo, desculpe.

Não respondi de imediato, meu cérebro tentava discernir o que estava acontecendo ali.  E como uma resposta involuntária fornecida pelo meu corpo, minha boca joga um sorriso forçado.

– Você está bem? – Dito me encarava enquanto franzia o cenho.

– S-sim. – Despertei do transe e comecei a falar por mim mesma. – Foi bom ver você novamente, agora eu tenho de ir.

Antes que eu fechasse a porta, Dito interrompeu com o braço.

– Espera, Alice. – Virei para ele. – Você quer andar de bicicleta comigo?

De repente, não sei o porquê, mas minhas mãos começaram a suar. E eu não me atrevi a responder, então Dito tomou a iniciativa de insistir. 

. . .

Pedalamos pelo parque na manhã seguinte. Quis ir até a feira com ele, para que os meus amigos o conhecessem. Em vez disso, Dito disse que não era uma boa ideia, pois talvez as pessoas pudessem dizer algo de nós pedalando juntos.

No entanto, eu não via nenhum problema, Dito e eu éramos apenas amigos. Pelo menos para mim. Então, por que ele disse aquilo? Será que me via como uma futura pretendente e não queria estragar tudo com possíveis falatórios?

Não, não! Isso era só coisa da minha cabeça, decidi então não ir para feira junto com Dito. 

. . .

No sábado, era dia de ajudarmos nossos pais na feira. A barraca da mãe do Dito ficava a duas barracas da nossa. Procurei ele com os olhos e o enxerguei cortando alguns abacaxis.

– Quem é ele? – Vovó me perguntou.

– Ah, é Dito. Um amigo de infância.

– Não lembro desse, querida.

– É porque nos afastamos durante um tempo, mas quando eu fiz 18 anos, ele voltou a falar comigo.

Contei toda a história para vovó.

– Ele está olhando para cá! – Ela disse.

Mas em fração de segundos, Dito virou a cabeça e não olhou mais nem uma única vez.

– Tem certeza de que são amigos?

– Bom, é né. Ele deve estar com vergonha.

– Vergonha de quem? Você? Ele poderia ter acenado ou dado pelo menos, um sorriso, por educação. Cuidado, Alice. Quem tem vergonha de andar ou até mesmo falar com você, não é seu amigo de verdade. Espero que não esteja gostando desse garoto, para o seu próprio bem.

– Não, não vó. – Depois dessa vergonha, contei os minutos para ir embora.

No meio do caminho, Dito corre e me alcança.

– Alice! Espera aí!

Eu estava com raiva. Quer dizer que agora ele vinha e falava comigo, porque não tinha ninguém perto?

– Alice. – Ele segurou meu braço.

– O que foi?

– Você está brava comigo? Por favor, desculpe seja pelo o que for.

– Por que você não falou comigo hoje lá na feira? – Ele não respondeu, ficou cabisbaixo. – Um oi com a cabeça já era suficiente, por educação.

Como ele não dizia nada, fui andando.

– Alice, desculpa. Eu vi você conversando com a sua avó e não quis atrapalhar, desculpa.

Eu fui me desarmando, pois ele parecia muito arrependido e na verdade, aquilo não tinha sido nada. Prometi a mim mesma que iria esquecer as coisas que Dito tinha feito comigo, como trocar a minha amizade quando criança e agora não querer ser visto comigo pelas pessoas que nos conhecia. Iria lhe dar uma segunda chance.

. . .

– Então quer dizer que você gosta de gatos e que, atualmente vive com três?

– Isso mesmo.

– E sua cor favorita é o roxo e você não come macarrão?

– Acertou! Bom, parece que você me conhece bem.

– Claro! Eu seria um bobo se não quisesse conhecer você, Alice.

. . .

O tempo foi passando e a nossa amizade só crescia. Mas, ainda vivíamos sob as restrições de Dito. Minha mãe ainda ficava desconfiada desse nosso “segredo”. E eu insistia em dizer que aquele era o jeito dele, tímido.

Até que um dia, conheci o verdadeiro Dito.

Estávamos comemorando uma enorme feira na cidade. Tinha barraquinhas para além do centro. Eu ajudava mamãe e logo minha avó chegou.

– Então, já viu o Dito?

– Bom, ainda não. Ele deve estar ocupado.

Passaram-se duas horas e eu só tinha visto Dito passar, de longe. Até que a feira terminou e ficaram apenas os comerciantes, limpando as sujeiras que os turistas deixaram nas ruas.

– Alice,

– Oi, mãe.

– Querida, o Dito tem namorada?

– Não… não que eu saiba. – Senti uma pontada no coração. Como se alguém tivesse enfiado uma faca nas minhas costas.

– Você está bem, querida?

– Sim, mãe. Só fiquei um pouco. . .  Surpresa, só isso.

– Desculpe, achei que soubesse. Dito sempre fala com essa menina. Claro, ela que sempre vem atrás dele por aqui, mas já vimos ele a acompanhar até em casa e, o mais estranho, é que moram em lados opostos. Mesmo assim, ele corre para acompanhá-la.

Eu ouvia o que minha mãe falava, mas não estava assimilando. Era o mesmo Dito que se preocupava comigo e queria fazer de tudo para me agradar? Claro, nós não tínhamos nada, mas ele acompanhava a outra garota desde a feira, na frente de todo mundo e não falava nem mesmo um Oi comigo, a menos que nos “esbarrássemos acidentalmente”?

– Eu já vou indo para casa mãe, se não se importa. 

. . .

Naquela noite, aprendi sobre o que não é ser amigo e descobri do pior jeito como é gostar de alguém e ser trocada. Dei uma segunda chance para Dito, que na verdade, nunca foi meu amigo, em vez disso, só me tinha como “alguém legal para conversar”.

No outro dia na feira, não aguentei olhar para ele e fiquei de costas na barraca. Por mais que eu quisesse não me importar, meu coração doía.

– Olha, lá vem o Dito e vem apressado. – Minha avó me disse.

Senti um leve frio na barriga e esperei ele me chamar e pedir desculpas e dizer que estava tudo bem, que aquilo tudo foi um mal-entendido, coisas da minha cabeça.

E quando ele esbarrou em mim, eu tive certeza, acabou.

Dito passou com tanta pressa que bateu com a bolsa em mim, fazendo com que me corpo fosse projetado para frente. Em vez de parar e se desculpar, ao menos, ele continuou e ainda mais rápido. Todos na feira viram e lá estava ele, correndo para a sua garota. Enquanto eu, bom, tentava apanhar do chão os pedaços do meu coração partido.

. . .

Depois daquele dia, não falei mais com Dito e ele, me esqueceu tão rápido que parecia que nunca tínhamos nos conhecido. Não é que eu estivesse louca por ele, mas a gente se apega. E se ainda tivesse a possibilidade de sermos mais do que amigos, ela tinha sido total e completamente eliminada.

Dito me fez sofrer, me fez quase chegar ao ponto de dizer que ele era o garoto certo.

Mas esse foi o problema, apesar de ser mais velho do que eu, Dito era só mais um garoto, que perdia seu tempo pensando “em brinquedos e proteção, romances de estação, desejo sem paixão, qualquer truque contra a emoção. . . “

Minha mãe e avó estavam certas, amigo que é amigo, não tem vergonha de você! E se tiver preocupado com que outros irão pensar, que pensem! A verdade só cabe a nós e a Deus. Não se rebaixe para agradar algum garoto, não desça seus padrões por ele.

Aprendi que devemos achar uma pessoa que nos ame exatamente como somos. “Feia ou bonita. Mal humor ou bom humor, seja o que for. A pessoa certa vai nos achar um arraso! “ 

 E quanto a Dito?

– Bom, ele só foi mais um garoto que conheci. Até achar o meu verdadeiro amigo e amor. Que não tem vergonha de mim, não me troca e acima de tudo: me ama do jeito que sou!

#Fim.

PRISCILA QUÉZIA AZEVEDO.

6 comentários em “Conto: A escolha

  1. Que lindo!Parabéns pelo lindo conto,retrata bem os egoístas e covarde que camuflam o que na realidade são e brincam de modo insensato com os sentimentos alheio.Parabénssssssssssssssssssssssssss!!!!

  2. PARABÉNS PRISCILA…………………..
    MUITO LINDO!

    RETRATOU BEM A MINHA REALIDADE E MIM ESTIMULOU A REJEITAR A CADA VEZ MAS
    QUEM NÃO MIM VALORIZA E A BUSCAR E A ESPERAR PELO MEU VERDADEIRO AMOR.

    ARRAZOUUUUUUUUUUUUUU PRI.

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