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{Conto} Quem é você, de verdade?

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 Nós seres humanos somos tão imperfeitos, tão insignificantes, mas mesmo assim, não deixamos de julgar as outras pessoas. E muitas vezes, esse julgamento ocorre de maneira bastante precipitada. . .

 

Ana, é o nome da nossa garota. Ela morava no interior de uma grande cidade, nunca havia entrado se quer, em um ônibus; até ser obrigada a isso para ir à “cidade grande”. Os pais da garota, gente muito simples, não tinham estudos, mas queriam dar para Ana uma vida melhor, por isso a mandaram para estudar na capital.

Eles estavam temerosos, mas como a menina era considerada uma boa filha, comportada, obediente e que tinha suas convicções religiosas, isso os tranquilizava.

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Felipe, é o nome do nosso rapaz. Ele tinha acabado de completar seus 18 anos e isto posto, sentia-se no direito de viver suas próprias aventuras! Começou a vestir-se de um jeito bastante diferente, pelo menos para os seus pais. Deixou a barba crescer, o cabelo era bagunçado e passou a usar chinelos para ir a qualquer lugar.

Ele havia economizado dinheiro e então, decidiu partir em viagem rumo ao desconhecido. Não quisera fazer faculdade, apesar da insistência dos pais, haja vista que, para Felipe aquilo não lhe servia de nada. Assim, apenas com uma mochila nas costas, junto com uma banana e uma barrinha de aveia e mel, seguiu para a rodoviária. Seu ônibus era o 630.

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Ana embarcou no ônibus 630 às 18:30. Os pais dela aguardaram até ela conferir seu assento e partir. A nossa garotinha estava assustada, agarrava com força sua mochila sobre si e evitava de olhar para os outros passageiros ao seu lado.

Até que senta ao seu lado, um rapaz bastante esquisito, no seu ponto de vista.

Ana evitou olhar para o rosto do garoto, mas notou suas pernas cabeludas e os chinelos brancos. Quando percebeu que ele havia dormido, olhou rapidamente para o seu rosto e, quase não viu um rosto ali, debaixo de toda aquela barba e cabelos compridos e despenteados.

Não demorou muito para Ana dar o seu prognóstico do rapaz: além de esquisito, cabeludo, hippie e para completar, um perfeito desocupado!

Então ela virou o rosto para a janela e começou a comer seu amendoim.

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Quando Felipe embarcou no ônibus, este estava parcialmente cheio, pois já vinha de outras cidades antes de parar naquela rodoviária. Sua poltrona 23, era no corredor, pois a da janela já estava ocupada por uma garota. Felipe percebeu que assim como as demais pessoas, aquela menina o achava esquisito, por isso não quis deixá-la ainda mais desconfortável com sua presença e decidiu dormir durante a viagem.

Passados duas horas na estrada, Felipe acordou e percebeu que quem dormia, era a menina. Ele a observa. Ela havia colocado a mochila entre as pernas, no chão e segurava na mão esquerda, uma fotografia. Felipe apostou todas as suas três maçãs na bolsa que aquela deveria ser a família da menina.

Então o nosso jovem parte para o seu prognóstico da garota: Uns 17,18 anos, não deve ter viajado muito, a filhinha perfeita e com certeza deve estar indo rumo a cidade para estudar e ter uma vida melhor, bobagem! – Acrescentou.

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Rosa, uma senhora sentada na poltrona da frente no ônibus, estava inquieta. Não era permitido beber ou fumar dentro do transporte. No entanto, Rosa não se conteve e tirou da bolsa uma garrafa com uma bebida. Tomou todo o conteúdo em menos de dois minutos.

Cinco minutos depois, Rosa estava cantando no ônibus, o que acordou os demais passageiros, que incluíam Ana e Felipe. O motorista teve de fazer uma parada de emergência para desembarcar a senhora.

Ligaram para os parentes dela, uma filha veio buscar a mãe alcoolizada. A moça ficou em choque ao ver a mãe naquele estado, pois para ela, Rosa nunca havia colocado uma gota de álcool na boca.

Contudo, para a surpresa de todos ali, quando os médicos chegaram, Rosa estava tendo um ataque, por conta da cirrose em um grau bastante avançado. Todos no ônibus ficaram boquiabertos com a revelação do médico. E quando Rosa foi posta em uma maca para ir ao hospital, ficou às vistas de todos as tatuagens que tinha nas pernas.

Alguns riam, outros achavam um absurdo, como uma senhora com um rosto angelical era na verdade uma alcoólatra descontrolada, que vergonha para a família, diziam.

O importante é que ela aproveitou a vida dela do jeito que queria, devia ser feliz assim, um rapaz por fim falou.

Um jornalista que estava presente acabou publicando uma matéria em um jornal local sobre o incidente: “Velhinha surta em ônibus e parentes descobrem a verdadeira identidade da aposentada: tinha problemas com bebidas e era apaixonada por tatuagens de animais, tinha mais de vinte imagens de animais variados tatuados em suas pernas flácidas. ”

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Na parada determinada no cronograma da viagem, os passageiros poderiam fazer algumas compras e logo em seguida voltar ao ônibus. Felipe comprou um daqueles sanduiches de frango e um suco de pêssego. Ana preferiu um hambúrguer com fritas e milk-shake de chocolate. Após o lanche, deram uma olhada nas lojas de beira de estrada. Ana parecia maravilhada com aquilo. Felipe a observava, quando de repente, viu a garota furtar um colar artesanal de uma lojinha e em seguida um cachecol de outra.

Preferiu não dizer nada e embarcou no ônibus. Enquanto caminhava para o seu assento, viu um garoto já sentado na poltrona ao lado. Ele parecia triste e olhava pela janela todos comendo. Felipe então tirou o resto do seu sanduíche de frango do bolso e o entregou ao garoto, que devorou o alimento em segundos.

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Depois de três horas, antes dos demais passageiros descerem, o garoto aproximou-se de Felipe e lhe deu uma pulseirinha de couro, ele fabricava e as vendia. Felipe gostava bastante daquelas pulseiras e descobriu que o menino só havia entrado de penetra no ônibus na última parada por descuido do motorista. E que aquele resto de sanduiche de frango era a sua refeição em dias, o comércio com as pulseiras estava fraco.

Após isso, Felipe continuou a observar Ana, ela continuava a furtar coisas em cada parada, como se aquilo fosse normal , ela agia no automático.

. . .

– Você não pode fazer isso, tá errado!

– Errado é você, olha como se veste!

– O que eu visto não diz respeito a quem eu sou!

– Diz sim, sua roupa fala por você, parece um mendigo!

– E você parece uma ladra, ou melhor, é uma! E nem está vestida de acordo…

Felipe e Ana acabaram discutindo durante a viagem, quando chegaram ao seu destino, cada um foi para o seu lado, sem se despedirem.

. . .

3 anos se passaram e desde então, Felipe nunca mais tinha tido notícias de Ana, mas as palavras dela, ainda o atormentavam. Seria possível uma roupa falar? Quem eu represento? Por que as pessoas pensavam coisas negativas ao meu respeito? Quem sou eu?

Durante todos esses anos, Felipe refletiu bastante naquela discussão.

. . .

Ana concluiu a faculdade, mas não voltou para casa. Ela estava muito doente, precisava de ajuda e seis anos depois, as palavras ‘ladra, furtar, descontrolada’, ainda pairavam em sua mente, palavras essas ditas por Felipe naquela discussão de anos atrás.

Um dia, caminhando pela mesma avenida, olhando para as mesmas lojas, as quais já furtaram alguns objetos, se deparou com um anúncio: Cleptomania, saiba qual o tratamento! Você não está sozinho, venha até o nosso consultório e conheça o nosso especialista!

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Ana aproveitou a oportunidade e foi até a clínica. Depois de uma conversa com o doutor, bastante descontraída, Ana atentou para o pulso do homem. Ele usava uma pulseira bastante gasta, de couro, preta.

– E-eu não acredito que seja você! Quase não o reconheci sem barba!

Após alguns segundos, o doutor respondeu

– Ana?

– Sim, sou eu, Felipe.

Os dois se olharam por um minuto. Ambos haviam mudado muito. Felipe não usava mais barba, o cabelo estava bem cortado e penteado, roupas bem limpas e passadas. Ana por sua vez usava roupas mais extravagantes e muitos acessórios, pintara o cabelo e não parecia mais uma garotinha do interior.

– Como?

– Como eu me transformei, “nisso”? – Felipe falava enquanto ria da situação. – Bem, eu pensei bastante no que você disse naquela nossa…

– Discussão

– Isso, desculpe pelo o que eu disse a você, me senti muito mal. Eu não deveria ter falado aquilo, você precisava de ajuda e eu só fiz dizer coisas terríveis a você. Desde então, tenho estudado sobre o seu problema e não vou descansar até ajudar as pessoas assim como você, me arrependo de ter deixado você sozinha, convivendo com isso. Desculpe, Ana.

– Desculpe ter chamado você de mendigo por causa das suas roupas, é a pessoa mais gentil e prestativa que conheço. Apesar de gostar mais de você assim, sem aquela barba e cabelo todo no rosto, você agora parece o mesmo garoto que vi entrar naquele ônibus, de chinelas brancas.

– Ah, isso eu não consegui largar! – Felipe levantou-se e mostrou para Ana suas sandálias crocs. – São mais confortáveis, sabe? Você se importa de tomar um café comigo, podemos conversar melhor sobre o que andamos fazemos todos esses anos.

– Eu acho uma ótima ideia, só me segura quando eu passar por alguma loja! – Ana disse um tanto que constrangida.

– Não se preocupe, vou te ajudar, sabe, a faculdade te ensina bastante coisa! Uma delas, isso foi minha pesquisa para a monografia e eu fui muito bem! Fala sobre. . .

. . .

E assim seguiram os nossos personagens, apesar de terem mudado bastante no decorrer de suas vidas, não esqueceram de quem eles eram e de quem queriam ser. Felipe, assim como Ana, aprenderam que se tem uma coisa imprevisível na vida, é que ela é imprevisível! As pessoas mudam constantemente, mas quem são no íntimo, seu caráter, permanece.

Ninguém nasce sabendo o que vai ser ou quem vai se tornar, mas uma coisa é certa, sempre temos escolhas, podemos fazer diferente, pensar, agir diferente. Não é porque alguém foi rude conosco que essa pessoa seja sem coração, ela só deve estar passando por um momento ruim.

No fundo, são pessoas diferentes, com problemas como a gente. Acredite nas mudanças, julgue menos e aprenda a ser gentil com todos, pois no futuro, não sabemos quem será aquela pessoa, o resultado pode ser surpreendente, um dia inimigos, no outro, amigos.

Quem será você, de verdade?

Priscila Quézia Azevedo.

5 comentários em “{Conto} Quem é você, de verdade?

  1. Realmente devemos ter muito cuidado com os “nossos” julgamentos afinal com eles edificamos ou destruímos a nossa imagem e a dos outros.Parabéns pelo conto,gostei da maneira como foi colocada a importância de demonstrarmos realmente o que somos e não nos escondermos em uma camuflagem,pois cedo ou tarde ela será desfeita.

  2. Excelente! É sempre bom tomarmos cuidado com as expectativas que criamos e os julgamentos que fazemos sem nem conhecer alguém direito, conhecer alguém é um processo que pode levar anos. Parabéns moça! 🙂

    1. Obrigada! É verdade, requer esforço da nossa parte para conhecer alguém e não nos basearmos apenas por nossas próprias convicções 😀

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