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{Conto} Mundo Gira

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-Anne, você está tão linda, querida!

– Obrigada, papai. Agora só falta experimentar o vestido que ficou para alguns ajustes.

– Eu nem acredito que a minha bonequinha vai casar! Estou tão orgulhoso e feliz por você, desejo toda a felicidade para você, meu bem. Isso é o que a sua mãe queria também para você.

-Obrigada papai, por tudo!

25 Anos depois

-Anne, sua nova estagiária chegou.

– O.K. Mande-a entrar.

Anne era a CEO de uma grande e bem-sucedida empresa de cosméticos, a B&H Cosmetic. Ela estava nessa empresa há mais de uma década e agora, entrevistava novas estagiárias para auxiliarem ela nas viagens representativas para outros países.

Uma jovem de mais ou menos 19 anos entrou na sala e com permissão de Anne, sentou-se na cadeira à sua frente. Depois de breves segundos de silêncio, a garota falou:

– Muito prazer, senhorita – Ela voltou os olhos para uma plaquinha que estava em cima da mesa de Anne – Jones.

Mas Anne continuou encarando aquela jovem de cabelos longos e escuros, com uma franjinha quase que da altura dos olhos.

– Senhorita, Jones? – Perguntou insistente a garota.

– Sim, desculpe. Seja bem-vinda, durante essa primeira semana iremos trabalhar bastante aqui no escritório. Você está com os seus documentos em mãos?

– Estou sim.

. . .

Durante a semana que se seguiu, as duas de fato tiveram muito trabalho.

– Srta. Jones.

– Sim, Beatrice.

– Faz tempo que trabalha nesse ramo de cosméticos? – Indagou a garota em uma tarde onde aprendera a organizar planilhas no computador.

– Sim. – Respondeu monossilabicamente.

– Meu pai sempre diz que eu devo valorizar essas oportunidades, por isso, agradeço a senhorita.

– O mérito não é todo meu, você mostrou competência nas tarefas as quais designei. Então, terminou com essas?

– Sim, está pronto! – Respondeu mostrando o monitor com as planilhas completadas.

. . .

Em quatro semanas, Beatrice já estava conseguindo fazer seu trabalho sem muita dificuldade. Além disso, ela facilmente estabeleceu bons relacionamentos com os outros funcionários, em especial, com Anne.

Certo dia, quando voltava do almoço, Beatrice espiou a chefe no escritório. Ela tirava um anel de sua gaveta e ficava alguns minutos olhando para ele. Quando Beatrice estava prestes a interromper, Andy, a secretária, a puxou pelo braço.

– Não a interrompa! Ela não costuma sair para o almoço junto com os outros chefes de departamento. Gosta de comer sozinha e pede para que ninguém a atrapalhe.

Após aquele breve esclarecimento, Beatrice ficou um pouco desapontada, pois Anne sempre pareceu uma boa chefe, uma boa amiga. Então porque não deixava as pessoas se aproximarem?

– Beatrice, entre por favor, está na hora da lição de hoje. – Ecoou a voz suave, porém firme, de Anne.

Toda semana, Anne contava uma história para Beatrice. Como uma espécie de fábula, dessa forma, a garota sempre aprendia alguma lição.

– Hoje irei contar-lhe sobre algo quase escasso entre as pessoas, mas que valorizo muito dentro da política da empresa: a honestidade.

– Você acha que vale a pena ser honesto, minha jovem?

E com essa pergunta de ponto de vista, começava mais uma história.

. . .

Após três meses, Anne efetivou Beatrice na empresa. Mesmo depois de todo o seu treinamento, Beatrice continuava a pedir por novas histórias para Anne. E esta, com prazer, contava—lhe novas histórias.

Depois de seis meses, Beatrice já era vista como uma profissional competente e altruísta. No entanto, ela observava Anne, que com tanto poder, não parecia feliz. Ela não recebia muitos telefonemas de amigos ou familiares.

Andy havia dito a Beatrice que Anne, já fora noiva a muito tempo atrás, mas não falava nada a respeito de sua vida pessoal.

                       . . .

Um ano se passou e Beatrice continuava a ouvir e aprender com as histórias da chefe.

-Viu só? Se Pedro não tivesse confiado em sua boa consciência, teria inventado aquela mentira e tragicamente, perderia o emprego. Espero que tenha tirado bom proveito de mais essa, Beatrice.

– Sim, com certeza! – Exclamava a jovem. – Mas, sabe, eu gostaria que me contasse uma história diferente. . .

– Por que? Não se agrada mais dessas histórias?

– Eu gosto muito desses ensinamentos em forma de narrativa que a senhorita me conta. Não estou sendo ingrata, apenas gostaria de saber sobre a sua história, aquela em que a verdadeira Anne seja a personagem.

Anne ficou paralisada por alguns segundos, franzindo a testa.

– Eu sei, posso está parecendo evasiva demais, mas tudo o que me conta eu posso aprender ou aprofundar nos livros, ouvir a sua história, essa sim, seria sensacional.

– Você não tem o direito de saber. Está sendo evasiva, sim. Não somos amigas, agora retire-se. Já perdi muito tempo lhe contando histórias que você pode ler nos livros!

Ao sair chorando da sala, Andy falou sarcasticamente a Beatrice:

– Eu avisei, garota. Ela é muito dura, até mesmo para uma aguinha tão leve como você, entende? – E deu uma breve piscadela.

– Mas eu só quis ajudar, ela não parece bem e pior ainda, ninguém está fazendo nada para ajudá-la.

                  . . .

Uma semana se passou e tudo o que Beatrice ouvia de Anne era:

– Bom dia.

A garota ficou muito desanimada e tentava argumentar sempre com Andy que ainda havia algo que ela poderia fazer.

– Já sei, vou entrar lá e pedir desculpas, eu realmente ultrapassei os limites em um ambiente de trabalho.

E quando estava prestes a bater na porta do escritório de Anne, a mesma abriu abruptamente a porta.

– Venha comigo, Beatrice.

– Para onde vamos?

– Uma última lição quero passar para você. Andy, – Dirigiu-se para a secretária- cancele a reunião das 14:30.

. . .

Ao encontrarem-se na calçada do grande edifício B&H Cosmetic, Beatrice falou:

– Anne, desculpe pela forma como eu disse aquelas palavras para você um outro dia. Você tinha razão, sou só uma funcionária e não tenho o direito de saber da vida de ninguém, afinal, não somos nem amigas.

A mulher de uns 35 anos, ficou estática olhando para a jovem ao seu lado, quando por fim disse:

– Não se preocupe. Você estava certa. Nada melhor do que uma história real para tocar a gente. Por isso, hoje vou lhe contar a minha história.

      . . .

As duas caminharam pela avenida que cortava o lado leste da cidade, até pararem em frente a uma praça histórica.

– Sabe o que eu vejo ali, Bea?

– Não exatamente. . .

– Eu vejo uma garota, com seus 18 anos, ela está conversando com um garoto da sua vizinhança. Eu tento acenar para ela, mas ela não pode me ver. Está tão encantada com aquele momento que, não me nota do outro lado da rua, gritando para que ela me veja.

Beatrice de início apenas vê uma praça qualquer, com pessoas aleatórias passando e daí nota, essa garota a qual Anne está falando, não existe ali com elas. Mas é algo referente ao passado, ao passado de Anne. Então continua a prestar atenção na história.

– Mas não adiantou, eu continuo gritando e não consigo impedir o que está prestes a acontecer.

– O que, ela morre?

– Não, Beatrice. Mas que se bem, teria sido uma opção bem melhor. O garoto pega a mão dela e lhe dar um beijo. É aí que tudo acaba.

– Como assim?

– Depois daquele beijo, a garota nunca mais foi a mesma. Eles começaram a fazer planos para um futuro, futuro esse, perfeito demais, você diria.

– É, estavam apaixonados, era de se esperar.

– Você tem razão, Bea. Vamos, a história continua em outro lugar agora.

As duas andaram por mais alguns quarteirões, até pararem em frente uma loja de noivas.

– Eles se casaram? Ai que bom! – Beatrice deduzia.

– Em uma tarde, dois dias antes do tão esperado dia- Continuou Anne – a noiva foi experimentar o vestido e o futuro marido, fotografava ela pelo lado de fora da vitrine. Ela estava radiante com tudo aquilo. Ele sem dúvida, era o homem com quem ela sempre sonhou, até mesmo o pai lhe dissera que sentia orgulho dela e de sua decisão na manhã anterior.

– Isso é muito bonito, Anne. Também espero encontrar o garoto que faça meu coração acelerar como nunca antes.

Anne sorriu e disse: Desejo o mesmo para você.

– Porém, a jovem da nossa história, não teve tanta sorte assim. Enquanto ela acertava alguns detalhes a respeito da cauda do vestido, seu futuro ”príncipe encantado, desceu do cavalo branco” para falar com uma moça que passava na rua.

A noiva achou que se tratava apenas de uma conhecida qualquer, quando percebeu que era a menina por quem seu noivo era apaixonado. Ela tentou chamar a atenção dele, mas não conseguiu.

Então, os velhos conhecidos se abraçaram e ela aguardou o momento em que ele diria: “ali está a minha noiva, iremos nos casar no sábado”, então ela teria acenado e ido embora.

Em vez disso, aquela pobre garota vê o seu futuro marido lançar um olhar diferente para a conhecida. O mesmo olhar apaixonado que ele deu para ela no encontro da praça. E foi aí que ela percebeu que, ele nunca a amou de verdade.

Depois, ela saiu correndo da loja – Beatrice afastou-se da porta, para dar espaço aquela pobre mulher, como se ela estivesse agora ali, com elas.

– Mas então o marido nem foi atrás dela?

– Foi sim. Mas quando ela se virou, prestes a entrar no metrô, viu na mão dele um papel com o telefone de sua antiga amiga ou paixão. E então teve mais certeza do que nunca e foi embora.

Beatrice ficou pasma com o final da história, não queria acreditar.

– Aquela, aquela moça, era você? Não pode ser! Como alguém poderia fazer isso com você, eu sinto muito por ter pedido para me contar algo tão doloroso.

– Ah, não se culpe, querida! O mais irônico vem agora. Depois de 25 anos, superei toda essa história, mas daí, num belo dia, sou apresentada a uma jovem estagiária que de cara, me faz sentir raiva e tristeza pelo meu passado. Por tanto tempo tentando evitar de encontrar o homem que me magoou, tenho como assistente, a filha mais velha dele. Fruto de sua relação com a mulher por quem ele me trocou.

Beatrice não se contenta e após ouvir tudo, desaba no choro. Anne, então ergue a sua cabeça e diz:

– Querida, sabe qual é a lição de hoje? Que o que fomos ou o que fizemos no passado, vai influir sim, no nosso futuro. Mas nós é que vamos decidir se iremos encarar com atitude positiva as reviravoltas da vida ou, se iremos sempre ficar remoendo os erros que cometemos no passado.

Na primeira vez que vi você e soube quem era, fiquei tentada a demiti-la na hora. No entanto, pensei ‘por que’? Você tinha demonstrado boas qualificações e um histórico excelente, eu iria lhe mandar embora por algo que aconteceu no passado e que não tinha nada a ver com você?

Por isso, decidi lhe dar uma chance e não me arrependo! Além de uma substituta capaz, ganhei uma amiga e foi algo que sempre quis ter. Você me lembra uma filha que eu infelizmente não posso gerar por conta de problemas de saúde.

Acho que essa é a forma da vida de dizer: aguente firme, o melhor ainda está por vim!

E Anne abraçou ternamente Beatrice, que para surpresa de Anne, foi abandonada pela mãe quando tinha oito anos.

 

O segredo é: Veja o lado positivo, pois com amor e generosidade, a vida lhe trará boas histórias e o mais importante, você sempre poderá mudar o seu final e deixa-lo, Feliz!

Priscila Quézia Azevedo

 

6 comentários em “{Conto} Mundo Gira

  1. PRI,Que conto lindo, as meninas do trabalho ficaram toda arrepiadas e uma delas até se identificou com a personagem e a história.Parabéns,muito bom mesmo!O seu dom é incrível!

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