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{Conto} Um amor de infância

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Eu não lembro, não, na verdade eu lembro muito bem. Eu estava na sexta série e ele também. Éramos até da mesma turma, coincidência não? Lembro de um rosto, um corte de cabelo, uma piada, um garoto.

Calma, esse não é mais um romance clichê! Eu repetia isso na minha mente toda vez que essa lembrança invadia meus pensamentos. Não sei porque eu lembrara dele. Nossa última conversa havia sido em anos. Mas a sua risada, seus desenhos, eram vivos na minha memória.

Ninguém levava ele a sério, achavam que ele tinha problemas. Por que então eu decidi ser amiga dele? Pelo mesmo motivo de ter os amigos que tenho hoje: gosto de pessoas peculiares, aquelas que não se encaixam, que voam abaixo do radar, mas quando menos se espera, elas nos impressionam com sua grandeza.

Ele era gordinho, tinha o rosto coberto por espinhas. Mesmo assim, era fofo. Ele começou a sentar ao meu lado todos os dias. Eu não me importava. Durante os intervalos das aulas, eu olhava para ele, sempre fazendo alguma idiotice. Mas por que eu fui me apaixonar por aquelas idiotices? Porque eram brilhantes!

Ele era um artista. De fato, eu poderia ter dito apenas, desenhista, pois era o que ele fazia. Mas artista soa melhor aos ouvidos, não é mesmo? Não, estou

desmerecendo ele. Além de desenhar, ele criava histórias, bem-humoradas inclusive. Eu ficava rindo ali daquele garoto com suas histórias

No início, eu não me importava de rir de suas histórias, achava sua criatividade impressionante. Depois de um tempo, ele me perguntava “o que você quer ouvir hoje? “ Então eu dizia “não sei, só me faça sorrir”.

E sorrindo apenas com um lado do rosto, de certa forma, malicioso, ele respondia “espera”. Então eu esperava.

Para onde ele ia no intervalo era um mistério para mim, eu preferia não me juntar a ele e suas esquisitices fora da sala de aula. Mesmo as pessoas dizendo que ele era estranho, em minha mente ele era um garoto incrível. Todo mundo o via como o gordão que lia revista em quadrinho. Mas eu não. Ele era uma espécie de Clarck Kent para mim, ou pelo menos, era isso o que ele se tornaria um dia.

Eu seria sua Lois Lane? Não, nem de longe! Eu não o via desse jeito, caso não tenha ficado claro. Eu tinha uma paixão por ele e ao mesmo tempo não. Gostava do seu jeito, da sua risada, da sua espontaneidade e até esquisitice, mas não era nada para o lado romântico da coisa. Seria possível sentir isso por alguém? Bom, eu acho que sim, pois era assim como eu me sentia para o garoto desengonçado e cheio de espinhas.

E nossa amizade foi seguindo, sexto, sétimo, oitavo, nono. . . a garota do riso frouxo e o garoto da mente aberta. Ele ficou mais alto do que eu, mais alto

do que a maioria dos garotos da nona série. Continuava o mesmo, caladão e risonho. Porém, eu não me sentava mais junto dele.

Entenda, eu fui fazendo outros amigos. A vida é assim. Esquecemos dos amigos mais antigos, desculpe pelo chá de realidade. Mas do meu lugar, eu sempre retornava para olhar ele. Que foi meu amigo antes de eu mesma saber o que era ter um amigo na escola. Quase não nos falávamos mais, mas ele sempre aparecia para mim, como que antevisse o nosso futuro afastamento. Eu me sentia segura, pois sabia que sempre poderia encontra-lo na sala, sentando ao lado da janela, na quarta carteira da terceira fileira da esquerda para a direita.

Depois de um tempo, algo aconteceu. Ele foi embora. Ele nem me disse que ia embora. E eu que achava que éramos amigos. Daí, vejo um pedaço de papel dentro do meu estojo. Eu não lembro do que dizia na íntegra, mas dizia em parte “você é uma pessoa amável”. Eu nunca me esqueci dessas palavras. Queria ter dito obrigada.

Mesmo assim, ele foi embora. Seria o nosso adeus? Não! Porque eu o vi, mais uma vez. Depois de uns três anos, estávamos finalmente cara a cara. Eu estava empolgada, ansiosa, nervosa, quase roía minha unha. Era ele, tinha que se ele! Mas se eu pudesse voltar no tempo e dizer para todos aqueles que zombavam dele “eu avisei, ele ia se tornar um garoto incrível”, eu o faria.

Ele tinha crescido mais alguns centímetros, não muito para ser considerado berrante. A altura certa. Magro, com desenhos de músculos não no papel, mas em seus braços. O cabelo com o mesmo corte, só que mais descolado. O

rosto limpinho e sério. Se eu mesma não tivesse previsto aquilo, não teria acreditado.

Meu Clarck Kent estava ali, bem na minha frente. Eu abri a boca, mas logo fechei, ao perceber que ele não me reconhecia. Eu pensei em chegar perto dele e dizer, sou eu! Você lembra que inventava histórias para mim, porque gostava de me fazer rir? Lembra quando a gente riu daquele professor que parecia com um dos bonecos desconcertantes que você desenhava? Lembra que. . . mas ele não lembrava de mim.

Estávamos na mesma fila quilométrica para tirar o documento. Você bem a minha frente. Quando captei sua presença na primeira vez, achei que nos veríamos apenas mais aquela vez e eu nem teria a oportunidade de falar com você. Mas daí, depois de horas, estávamos no mesmo ginásio, ele sentando em uma cadeira próxima a arena e eu ainda na fila nas arquibancadas. A medida que a fila andava, eu ficava cara a cara com o garoto, mais uma vez, desde que ele passou ao meu lado, olhando para mim, antes de entrarmos no ginásio.

Eu estava bem a sua frente, só que a metros de distância. Via seu rosto, mas não suas feições. Sua pele branquinha sobre a camisa preta era inconfundível. Para ser mais exatas, éramos como ponteiros em um relógio. Eu marcando às nove e você marcando em cima do três. Nove e quinze, os ponteiros com distâncias exatas, tão pertos, mas tão longes.

Eu o catava pelos olhos. Cheguei a me sentar na cadeira quase ao lado do seu grupo de cadeiras. Teve uma hora que ele me encarou, bom um bom tempo,

eu estava sorrindo, ele não. Pensei, era aquela a hora. Nosso grandioso reencontro, velhos amigos novos. E quando estava prestes a estender meu braço para acenar, ele virou o rosto.

Fiquei um tanto que decepcionada. O que foi aquilo? Ele não podia me dar as costas, não ele, era meu amigo. Tanta gente já tinha me dado as costas. Minhas amigas só queriam saber de garotos, eram tão frívolas quanto as pessoas que caçoavam do meu garoto peculiar. Foi ali que percebi o quanto eu havia perdido. Não me dê as costas. Não, eu não vou suportar.

De repente, as pessoas começaram a ser chamadas para receberem seus documentos e logo ele se levantou e foi embora. Eu o seguia pelos olhos, mas em meio à multidão o perdi, mas uma vez. E pela segunda vez, ele tinha ido embora.

Contudo, apesar de não conseguir falar com ele, me senti feliz e aliviada por ter visto o reflexo do futuro homem que ele se tornaria. Pensei, o que teria sido diferente se a gente tivesse dito um simples “oi, quanto tempo! “ Será que a voz dele agora estava mais grossa? Ele ainda desenhava? Ele ainda queria me fazer sorrir? Seria muito para perguntar?

Eu não conseguia ver ele através da multidão, nem através dos meus pensamentos. Seria aquele o momento para esquecê-lo de vez? Talvez.

Com esses pensamentos, fui caminhando para a saída do ginásio. Respirei fundo e segui em frente. Quando sinto uma mão por cima do meu ombro.

“Lucy? ”  A voz, aquela voz.

Eu virei e olhei para aquele gato a minha frente. Não vou mentir, ele estava um gato. Camisa preta de algum anime, óculos ray ban preto, com o cabelo balançando ao vento. Parecia uma cena de novela, fiz essa nota mental. Demorei alguns segundos para responder.

“Tom. . . “

Ele sorri, aquele mesmo sorriso malicioso de garoto geek.

“Quanto tempo, eu estava em dúvida se era você mesmo, mas decidi arriscar mesmo assim falar com você. ”

“ É, obrigada! Eu tinha certeza de que era você. “

“ Você me conhece mesmo, não é pequena Lucy? “ Ele me chamara assim como no fundamental, quando ele estava ficando maior e eu continuava baixinha.

Ficamos ali parados, olhando um para o outro, apreciando aquela pequena pausa do mundo externo. Até que uma garota ruiva se aproxima de nós. Ela usava calças apertadas, com uma blusa do mesmo anime que Tom. Eles seriam . . .

“Thomas, achei você! “

Ela deu um beijo na bochecha limpinha e um tanto que brilhante de Tom. Eu não me senti mal com aquilo, por incrível que pareça, nem uma pitada de ciúmes ou humilhação, desejando também ter alguém para me beijar e poder apresentar a eles, não, eu não. Eu me recusava a ficar igual as minhas amigas e seus Ken’s.

Continuei olhando os dois. Tom de fato havia encontrado a sua Lois Lane e ela era tão peculiar quanto ele. Formavam um belo casal. Ah como eu queria usar uma máquina do tempo e mostrar para todos aqueles idiotas da nossa turma o quanto Tom havia mudado, mas no fundo, ele não mudara, continuou o mesmo, nerd e de bom coração.

“Thomas me falou uma vez de você, que era sua maior fã na sexta série. Obrigada por incentivá-lo a continuar nesse ramo dos desenhos! “

“ Não foi nada, eu que agradeço a ele! “

Ele me apresentou sua namorada, conversamos brevemente sobre o que tínhamos feito depois do colégio, como estava as nossas mães, os ex colegas e tudo. Tom conheceu a sua Lois na editora a qual trabalhava, ela era roteirista e ele cartunista, isso não é fofo? Um escreve e o outro desenha, um cria o outro dar vida. E no final, tudo se completa!

Nos despedimos e eles foram seguindo por um lado e eu continuei no meu caminho, sem ressentimentos, sem cobranças, sem adeus, afinal, ele só foi um breve amor de infância, mas com certeza seria um permanente amigo, sempre vivo em minha mente e coração.

 

2 comentários em “{Conto} Um amor de infância

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