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{Conto} Alice nas Terras Esquecidas

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Alice estava na estação nove, plataforma 15, esperando o próximo trem. Ela olhava para as pessoas a sua volta, mas não as entendiam. Pareciam fazer as mesmas coisas, dia após dia. Levantou-se e foi até uma daquelas máquinas que vendem saquinhos de pipoca e comprou uma pipoca caramelizada.

Voltou até o banco da plataforma 15 e puxou da mochila um livro. Era sua história favorita: Alice no Reino dos Forrúcios. Ganhara da avó quando tinha sete anos. Ela amava aquela história porque, primeiro, a protagonista tinha o seu mesmo nome e segundo, o mundo de Alice, era um mundo mágico, onde as pessoas podiam ser quem quisessem ser e onde mistério e fantasia se entrelaçavam.

“Alice vira um ser estranho caminhando pelo bosque, ele era pequeno e ligeiro.

– Ei, volte aqui com as minhas maçãs douradas! – Gritava Alice atrás da criaturinha. “

Quando Alice terminara de ler aquela frase, um homem de estatura mediana, sentado ao seu lado na cadeira, levantou e furtou seu saco de pipocas caramelizadas.

– Volte aqui com a minha pipoca! – Saiu atrás do homem, mas foi em vão.

Ela olhou ao redor e as pessoas a encaravam como se ela fosse uma maluca. De repente, começou a ouvir sons do outro lado da parede onde parara. Eram de violoncelos. Alice reconhecia o som dos instrumentos pois fazia parte de uma orquestra. Colocou a cabeça na parede e começou a ouvir de perto, porém ainda abafado, o som da melodia. Fechou os olhos e ficou ali, como uma maluca, no meio da estação lotada.

Seu trem chegou e ela não embarcou, só ouvia a correria das pessoas irem e virem, “será que elas não podiam ouvir aquele som maravilhoso? ” Perguntava-se Alice, ainda com o ouvido rente da parede e olhos bem fechados.

                                      . . .

– Menina! – Alice ouvia uma voz de longe.

Ela acordou, um tanto que atordoada e percebeu que dormira no pé da parede. Só havia um problema, a parede estava ali, mas onde tinha ido parar a estação?

– O que aconteceu?

– Eu estava plantando sementes de maçãs douradas e vi você deitada nessa árvore.

– Árvore? – Alice virou-se rapidamente e viu que não estava mais encostada na parede, mas sim no tronco de uma enorme árvore. Parecia uma sequoia com folhas azul e flores laranja na copa.

– Qual o seu nome? Está perdida?

– Eu não sei quem você é, meu nome é Alice e para falar a verdade, não sei onde estou.

– Mas é claro, onde estão meus modos? Bem-vinda a Pathos, território 7 das Terras Esquecidas. Meu nome Keena. Pode vim comigo, as luas estão surgindo e é melhor ficamos escondidas, os Quilions não são nada amigáveis.

     Alice olhava assustada para aquela mulher a sua frente, vestida com calças largas e uma blusa branca bastante usada. Ela levantou e olhou ao seu redor, estavam em uma floresta, a maioria daquelas árvores tinha folhas azul e com o cair da noite, surgia pigmentos rosa nas folhas, as flores laranjas se recolhiam e davam lugar apenas a coloração rosa.

     A iluminação vinha dos pigmentos das folhas e Alice percebeu o quanto aquele local era imenso e belo, porém desabitado.

– Alice, temos de ir. Os Quilions já vão aparecer.

Assim seguiu a moça com calças pantalona.

                                                        . . .

Alice chegou em frente a uma caverna, haviam resto de ossos ali e marcas de garras nas rochas.

– Eu não vou entrar aí! – Falou Alice.

– Não precisa ter medo, Alice. Isso é camuflagem contra os Quilions. Camuflagem.

– O que é isso?

– Quilions são lobos da noite, eles têm um olhar hipnotizante, se você olhar diretamente para eles, já era! Levam você até uma caverna e te devoram.

– Tipo essa caverna? – Alice estava assustada.

– É. Tipo essa. Mas veja, quando eles marcam uma caverna, – mostrou as marcas de garra – significa que não voltar para ela, pois eles sempre buscam por lugares novos. Apesar de não eliminar as chances deles de voltarem nos mesmo locais que já estiveram.

    As duas entraram na caverna, estava muito escura e Alice não enxergava por onde andava. Procurou por Keena, mas não ouvia mais seus passos. A medida que andava, Alice sentia uma leve coceira no braço, quando viu, ele estava cor de rosa.

– Keena! – Gritou.

Ela não respondeu e Alice começou a ficar preocupada. Mesmo assim, não conseguia parar de andar, parecia que já andara por toda a caverna sem fim.

– Keena, cadê você?

– Aqui.

Alice virou e Keena segurava uma folha gigante com as pintinhas rosa.

– Bom, eu que pensei que precisávamos de iluminação, mas você já cuidou disso! – Disse apontando para o braço de Alice.

– E-eu não sei como isso aconteceu! É perigoso?

– Não, não! Você apenas encostou o braço em uma das Rosalitas. Fui pegar isso para você. Deixou cair enquanto estava deitada.

– Meu livro! Obrigada!

– O que é livro?

                                                  . . .

– Então quer dizer que você veio parar aqui porque alguém roubou sua comida? Bom, nada mais engraçado do que isso!

– O que tem de engraçado nisso, Keena?

– Você ter vindo recuperar sua comida justamente no território 15 de Terras Escondidas, não temos comida aqui! Apenas plantamos e mandamos para o Keet.

– Quem é Keet?

– Ele que manda. Ele é sábio, sabe ler. Todo mundo adora ele.

   Alice tentava acreditar em tudo o que aprendia sobre aquele novo mundo. Apesar de ser belo, as pessoas ali eram esquecidas do resto da civilização. Keena fazia parte de um grupo de agricultores que apenas eram mandados para os territórios mais perigosos, porém férteis, com o objetivo de plantar e colher frutos para Keet e sua família.

    A população não sabia ler, aprendiam por meio de imagens e experiência. A fauna e flora eram totalmente diferentes de tudo o que Alice tinha visto. O nome dos animais tinha sido dado pela família de Keet da primeira geração. Sempre fora assim, já que eles sabiam ler, por isso não eram questionados.

– Keena, porque você não aprendeu a ler?

– Porque nunca me ensinaram.

– Você não foi a escola?

– O que é isso?

    Alice percebeu que a situação ali era pior do que em seu mundo. As pessoas não tinham a oportunidade nem de serem ensinadas a ler. Keet era um verdadeiro ditador tirano. Alice queria dizer umas poucas e boas aquele governante e dali três dias, teria essa oportunidade: dia de coleta!

   Todos aqueles trabalhadores tinham de levar os frutos de suas colhetas perante Keet e sua família toda quinzena de Adar. Bem como os exploradores, pessoas usadas por Keet para explorar novos caminhos em Terras Esquecidas.

                                                   . . .

 Como os habitantes de Pathos não sabiam ler e muito menos o que eram livros, Alice começou a ler para Keena naquela noite a história do livro.

“- Não se pode confiar em tudo o que dizem, minha menina. – Falava Forrúcio, o Rei cozinheiro.

– Mas eu achei que ele fosse uma pessoa boa, daí quando virei as costas, ele roubou minhas maças douradas!

– Não tem problema, podemos colher mais para você amanhã. ”

– Alice, faz tempo que você ler?

– Ãn, faz um tempinho sim.

– E você também manda no seu povo, assim como Keet faz?

– Não, não. No meu mundo, muitas pessoas sabem ler, uma minoria que ainda não aprendeu.

– Sério? Então vocês são bem mais evoluídos do que nós! Imagino que no seu mundo tudo seja perfeito! As pessoas se respeitam, todo mundo vive igual e os animais não são maltratados! Eu queria muito conhecer o seu povo, Alice.

   Alice sentiu um nó na garganta por ouvir tudo o que Keena especulava saber sobre os humanos, sua forma de vida e de governo. Era uma fantasia maior do que a encontrada nas Terras Esquecidas. Mas ela não se achou no direito de destruir a imagem que Keena criara sobre o mundo lá fora.

– Bem, é. A leitura tem um grande poder…

– Isso, Alice! Meu avô Mirus sabia falar nos três idiomas principais de todas as Terras Esquecidas, mas ele não sabia ler, por isso era bem ignorante! Não o julgo, ele era um explorador, lidava com todo tipo de gente. E os Globins eram os piores, sempre fazendo travessuras.

                                                      . . .

   Na manhã seguinte, Keena levou Alice para o bosque. Era ali que plantavam as sementes de maças douradas.

– Keena, o seu povo toca algum instrumento?

– O que? Não! Não podemos e não fale mais sobre isso.

– Mas é que eu. . .  – Alice não entendeu o porquê da proibição de Keena, afinal, foi por ouvir as melodias que Alice acabou entrando naquele mundo, ou pelo menos era o que pensava.

   Chegaram no cento do bosque onde um cogumelo gigante servia de palanque para uma homem batata. Isso mesmo, homem batata. Alice tampou a boca com as mãos quando o viu.

   Diferente das batatas, que para a garota, eram uma fofura, aquele homem lhe causava calafrios. Ele tinha o corpo de homem, mas seus braços tinham dobrinhas e os pelos eram como se fossem as raízes da batata quando tirada do solo. Sua pele era áspera e seca, lembrando a casca do tubérculo.

    Usava óculos pequenininhos e redondos na cara de formato esquisito, bem menos do que o corpo. Os cabelos, ou pelo menos eram assim chamados, novamente pareciam com raízes, só que pouquíssimos, o homem tubérculo era quase calvo.

– Keena, setores 13 e 14. – Anuncio do topo com um sotaque bastante exótico do ponto de vista de Alice.

    No caminho, Alice perguntou:

– Quem era ele?

– É só mais um capacho de Keet. Resumindo, o que Keet fazia com ele, agora ele faz com a gente.

– É seu chefe, então.

– Isso. Mas eu não gosto dele, ninguém gosta.

– Tudo bem, no meu mundo, as pessoas também não suportam seus chefes.

  As duas foram conversando, até se aproximarem de uma árvore marcada no tronco com o número 13. Quando Keena passou pela marcação e não parou, Alice disse:

– É aqui, já chegamos no 13.

– Não vou para o 13 hoje.

– Mas o senhor batata mandou. Pode ter consequências se não obedecer ao chefe, você perde o emprego.

– Eu não ligo de perder!

 Enquanto dizia isso, Keena continuava andando, depois começou a correr e a cesta de sementes permanecia presa em seu braço. Alice teve de correr para alcança-la. Adentraram no bosque, que parecia mais uma selva desabitada.

  Alice então parou e olhou para cima, quase não via o céu, pois as árvores gigantes com suas folhas gigantes cobriam praticamente tudo.

   Ela olhou para os lados, mas tinha perdido Keena de vista. Daí lembrou do que sua avó dizia: “Se você se perder na floresta, abrace uma árvore que logo encontrarão você. ”

 O problema era que Alice já estava bem grandinha para esperar por ajuda naquela posição. Decidiu ela mesmo encontrar o caminho de volta para casa. Caminhou seguindo apenas a luz do sol, até se dar conta que parara na beira de um penhasco.

  No entanto, ao olhar para baixo, não se deparou com nada sinistro ou escuro. Em vez disso, viu uma floresta a sua frente e de repente, tudo ficou em silêncio. Era só Alice e todo aquele matagal. Ela escutava os sons da natureza e de seus habitantes, faziam uma festa para ela, pensou. Isso que era uma verdadeira boas-vindas!

   Alice decidiu sentar-se ali, num pé de árvore e continuar apreciando a vista. Talvez, se ela dormisse ali, conseguisse voltar para casa. Será que sentiam a falta dela? Eles se deram conta de que ela não apareceu para jantar? Essas perguntas fizeram Alice despertar. Esticou bem os braços e quando estava prestes a se levantar para ir embora, viu Keena ao seu lado.

 – Onde você estava?

– Ali. – Apontou para a direita, havia alguns ganhos postos na terra indicando onde haviam sido colocadas as sementes.

– Pensei que tinha ido embora.

– Por que eu faria isso, Alice? Não se pode abandonar ninguém em nenhum território das Terras Esquecidas. Caso contrário, essas pessoas nunca mais são encontradas.

  Alice ponderou sobre as palavras de Keena. Talvez aquele fosse o jeito dela dizer que se importava com a menina.

As duas ficaram lá, sentadas na beira do penhasco, olhando para o horizonte.

O céu no horizonte estava de um azul alaranjado, pois o sol escondia- se atrás das nuvens. Keena perguntava sobre o mundo de Alice e esta, por sua vez, perguntava como era a vida em Pathos. Descobriu que aquelas terras não constavam no mapa, pelo menos Keena não sabia indicar.

– Você parece que é bem independente, foi por isso que não obedeceu a ordem de ir plantar nos locais indicados?

– Se com independente você quer dizer cansada de fazer as mesmas coisas todos os dias, sim.

– Bom, isso se chama monotonia. É quando algo não muda, não tem diversidade, são só as mesmas coisas ou atividades e até rotina, sempre.

– É isso. Eu não queria ser coletora, queria sair por aí, aprender a ler e então explorar todos os limites do meu mundo.

– Entendo. Eu também me sinto assim.

– Verdade? Pensei que no seu mundo você podia fazer o que quisesse, que era livre pra isso.

– Mas eu sou. Posso viajar para outros lugares, conhecer novas pessoas, culturas diferentes…

– Então qual o problema?

– Eu não sei, talvez seja eu o problema.

  Após dizer isso, Keena pegou o livro de Alice da mochila e pediu que ela o lesse.

“Alice ajudou Forrúcio a preparar o melhor banquete que já fizera para servir ao Rei.

Forrúcio cozinhava e comi alguns pedaços de legumes enquanto Alice os cortava, não conseguia parar de comer! Não era como se ele comesse como um porco, ele era um porco. Mas o melhor porco cozinheiro dos Forrúcios. ”

  Keena dava gargalhadas com aquela história de porcos cozinheiros. Já que em Pathos, alguns porcos eram usados como guardas entre as fronteiras. Mas de fato, sempre que os via, estavam comendo algumas maçãs douradas.

  “O jantar tinha saído do jeito que Alice e o chefe Forrúcio planejaram, foi um verdadeiro sucesso!

O rei foi agradecer aos dois pessoalmente no final do jantar. E disse que teria uma surpresa para Alice. Era algo que, segundo o rei, agradaria muito a menina. ”

– O que era, o que era? – Perguntava inquieta, Keena. Parecia uma garotinha ansiosa para ouvir o final da história.

– Calma, já vou ler. – Ria enquanto respondia, Alice.

“-Tragam o prisioneiro! – Anunciou o rei.

Por fim, os guardas forrúcios trouxeram acorrentado um filhote de panda.

– Aqui está, Alice. Esse ladrãozinho que roubou suas maçãs douradas!

– Perdão, majestade, mas eu lembro perfeitamente que tinha sido um homenzinho e não esse filhote.

– Bobagem! É ele, veja só!

 O rei pegou uma espada que estava na cintura de um dos porcos guardas e se dirigiu para o filhotinho de panda:

– Transforme-se, agora! – Vociferou o rei

O pobre animal, sentindo-se intimidado, ficou de pé e como num passe de mágica, transformou-se em um homem bastante pequeno, como se fosse um anão.

– Viu só? Eles são os mestres dos disfarces, minha menina. Agora tome – Dirigiu-se para Alice e lhe entregou a espada – Acabe com ele.

  Alice não estava acreditando no que acabara de ouvir. Aquele rei aparentemente tão bondoso, estava pedindo que uma garotinha matasse outro ser vivo. Alice não faria aquilo, ele não merecia tal punição.

– Eu não vou matá-lo, majestade. Entendo que a sua intenção era – Antes que Alice terminasse a frase, o rei a interrompeu:

– Inaceitável! Eu lhe dei de presente, um presente real garota tola. Agora termine com isso, ou será trancada junta com ele!

Alice olhou para seu amigo cozinheiro e ele estava com lágrimas nos olhos. Todos ali olhavam para ela e esperavam que tomasse uma atitude.

Ela caminhou com a espada até aquele pobre panda travesso e ergueu a espada, segurada pelos seus dois bracinhos e quando baixou, todos deram um suspiro e fecharam os olhos. Estava feito. “

– Ela o matou? – Perguntou Keena, incrédula.

– Ela tinha de fazer aquilo, caso contrário, seria presa e nunca mais voltaria para casa.

– Não é justo, Alice! Sempre temos uma escolha, podemos escolher fazer o bem e se tem uma coisa que o vovô Mirus me ensinou é que, quando fazemos algo de bom por alguém, isso sempre retorna em dobro para nós.

– Está certa, agora vamos ver se Alice pensa igual a você e ao seu avô.

– Continua, continua!

“Alice fincou a espada no chão. Ao lado do prisioneiro panda e logo em seguida, ajoelhou-se e ergueu as mãos para o guarda:

– Podem me prender, não por ser negligente as ordens de vossa majestade, mas por dizer não a injustiça.

  Os guardas levaram Alice junto com a panda para o calabouço do castelo.

– Não, Alice! – O senhor porco saiu correndo para cima do guarda.

– Para trás, cozinheiro! – Gritava o guarda.

– Vamos prendê-lo! – Disse o outro.

– Não! Ele é o único cozinheiro real! – Interveio o rei.

  Vendo que estava em vantagem, Ferrúcio fez um acordo com o rei e conseguiu libertar Alice e logo em seguida, o panda. “

-Ufa! Pensei que o rei mandaria matar todos! – Disse aliviada Keena.

– O bem sempre prevalece, Keena.

                                                         . . . 

As duas voltaram pelo bosque comentando sobre aquele capítulo da história. Já estava escurecendo e mais uma vez, as plantas voltavam a sua coloração rosa.

Quando já estavam perto da caverna, Keena escuta passos.

– Espere aqui, Alice.

– O que foi?

 Keena conhecia aqueles passos, reconheceria de longe. Escondeu-se atrás de uma folha, isso porque a vegetação em Pathos era gigantesca. E quando os passos foram aumentando, ela saiu de trás da folha segurando um garoto. Era um pouco mais alto do que Alice, porém devia ter sua mesma idade.

– Keena, sou eu, Peter! – Clamava o garoto.

– Eu sei, Pit. O que você quer? Correndo desse jeito, os Quilions poderiam rastrear você.

– Mas eu precisava Ke, é o chefe. Quer ver você. Com urgência e sem gracinhas. Foi ele quem disse. – Peter falava enquanto balançava a cabeça, como se confirmando o que ele próprio estava dizendo.

– Certo. – Keena soltou o garoto.

– Ei, quem é essa? – Disse correndo em direção a Alice.

– Espere, não a assuste! Essa é Alice, acredito que tenha vindo da superfície. É minha convidada.

– Convidada, é? O chefe já sabe disso?

– Sabe sim, ela estava comigo lá na coleta.

  Alice não fez um piu, quando viu rosto de Peter, arregalou os olhos. Ele era metade bode. Seu tórax e rosto era de um garoto humano, no entanto, seu rosto tinha uma enorme cicatriz no lado esquerdo, fazendo com que sua pele desse lado do rosto fosse mais vermelha e inchada.

                                           . . .

 

– Você acha que ela ainda vai voltar hoje? – Perguntava Alice para seu novo guardião, Peter, pois Keena teve de comparecer diante do capitão batata.

– Acho que sim, Ke é bastante esperta.

– Faz tempo que se conhecem?

– Ah faz, ela é minha meia irmã. – Piter olhou de soslaio para a reação de Alice.

-Como?

– O pai dela se casou com a minha mãe, que é metade bode, então surgiu eu!

– Ainda não entendo, mas tudo bem. Pensei que Keena não tivesse família.

– Mas ela não tem. Ela, quer dizer, nós, somos os últimos da nossa família.

  Então Peter começou a contar a sua história para Alice, cuja história foi a mesma que Keena contara para ele quando criança.

“Há muito tempo, quando só se sabia existência da floresta Gu, que ficava nos arredores do castelo de Keet, alguns homens escolhidos dentre o povo, para explorar as novas terras. O pai de Peter foi um desses, na época, Keena tinha apenas cinco anos. ”

 “ Eles não sabiam de nada do que acontecia fora dos domínios do reino. Na primeira viagem, tiveram muitas perdas, pois a floresta era perigosa e os animais, bastante ferozes e desconhecidos.

O nosso pai foi um dos três do grupo de dez homens que restaram. Graças a persistência deles que hoje temos os 7 territórios sob domínio e conhecimento de todos. Eles ficaram fora por sete anos e quando retornaram, tudo estava diferente. Keet havia se tornado um ditador, que oprimia o povo e a nação morria de fome. ”

   “Mas tanto meu pai, quanto os outros homens que sobreviveram, não quiseram mais viver debaixo das leis opressivas de Keet. Então buscaram suas famílias e fugiram para muito depois da floresta de Gu.

Fora para os domínios de Terras Esquecidas onde nenhum rei imaginava existir. Lá era tudo belo. Os animais, tinham uma enorme diversidade. Meu pai contava que existiam monstros marinhos e por isso não podíamos entrar nas águas escuras. “

  “ Durante bastante tempo, eles viveram em paz e harmonia, tanto entre em si como com os animais. Os Quilions eram dóceis, pois confiavam naquelas pessoas. Porém, certo dia, a mãe de Keena foi plantar algumas sementes perto de uma caverna. Ela sabia que não podia ir tão longe e sozinha, acabou sendo picada por uma aranha venenosa. Elas picam você e dentro de poucas horas o veneno é instalado em todo o seu corpo. Naquela época ainda não sabiam a cura para isso, então ela morreu. “

   “Keena acabou fugindo pela floresta naquela noite e o nosso pai ficou mais arrasado. Daí,ele também entrou na mata a procura de Keena e conheceu a tribo da minha mãe, eram nativos bastante hostis, mas depois de conversar com o líder da tribo, eles acabaram ajudando meu pai na busca de Keena e designaram a melhor guerreira para acompanha-lo, minha mãe… daí você já viu, uma coisa leva a outra! “

   Alice riu por Peter mexer as sobrancelhas de um modo bastante engraçado, querendo enfatizar o que dissera. Após ele beber um gole de leite e comer uma folha de papaya, continuou a história:

  “ Keena apareceu uma semana depois, tinha alguns arranhões no rosto, mas no resto, estava intacta. Mostrou ao pai o que descobrira sobre as terras por onde andou e foi aí que Jem entrou na história. Ele encontrou Ke antes de todos os outros e cuidou dela até poder voltar para casa. Ele era um garoto de pele azul e cabelos e cabelos vermelhos como o fogo. Moravam na planície desértica de Terras Esquecidas. Eram um povo bastante numeroso. Eles acabaram se juntando a nós, criamos um imenso acampamento. Com ajuda dos guerreiros, tínhamos proteção e com a inteligência de Jem e sua tribo, conseguimos levar um modo de vida até que sustentável. Foi assim até por um tempo, eu lembro que fazíamos festas no meio da floresta, até tarde, já que os Quilions não ameaçavam a gente e nem mesmo as aves do céu. Jem e a família tocavam as mais belas músicas e dançávamos até o sol nascer. Keena amava o som do violoncelo dele. Era tudo perfeito.”

– E quando foi que tudo mudou? – Alice perguntou diante da nostalgia de Peter ter interrompido a história.

– Quando Keet descobriu onde estávamos e mandou uma tropa de mais de 500 soldados para nos destruir. Foi um massacre. Ele teve contato com forças sinistras para conseguir nos derrotar, acabou sofrendo por causa disso. Metade de seu reino, agora pertence a um senhor das trevas é por causa dele que Keet consegue que todos fiquem sob seu domínio.

– Ele matou a todos?

– Quase todos, as mulheres e crianças foram mandadas para as montanhas ao norte, enquanto os homens lutavam bravamente pela liberdade. No final, não sobrou nada, destruíram tudo e até a parte da floresta onde estávamos, ficou escura e infrutífera. Eles passaram a aprisionar os que sobraram e até os animais. Foi nessa época que os Quilions se rebelaram e ficaram valentes, foram obrigados a isso. Keena e eu fomos para as montanhas e nunca mais vimos nossos pais.

– E quanto a Jem?

– Ele morreu depois de um tempo, os guardas de Keet quebraram suas mãos, para ele nunca mais tocar nenhum instrumento. Música foi proibida. E a partir daquele dia, não podíamos nos dirigir mais ao rei, a menos que ele convocasse. Passamos a ser governados por chefes de territórios e divididos por terras, cada um com sua tarefa. Nós do 7 somos coletores. Eu trabalho como mensageiro. Qualquer mensagem ou decreto do rei, tenho de enviar para o nosso território e o 6, que estão interligados a nós.

– Que triste, isso, isso é terrível! Ninguém faz nada? Como podem ficar sentados enquanto tudo isso acontece? Será que a morte dos seus pais, de Jem e de todos os outros foram em vão? – Alice estava agitada.

– Ei, calma! As coisas não são assim, menina! – Alice calou-se ao perceber o tom rígido na voz de Peter.

                                            . . .

– Você contou pra ela? – Perguntou Keena.

– Contei. Você disse que ela era de segurança, só ficou irritada quando soube que não fazíamos nada para mudar a situação.

 Keena olhou para Peter com a mesma cara que o pai fez quando soube do envolvimento dela com Jem. Já tinha perdido gente demais tentar lutar por um bem maior.

  Diante da reação da irmã, Peter disse:

– Desculpa, Ke. Eu só achei que ia ficar feliz de saber que Alice também é musicista.

– Ela te disse isso? Lembro que falou algo sobre melodias, mas não lembro o que era…

  Alice dormia em cima de um tronco de árvore revestido com pele de animal. O travesseiro era a auréola de um cogumelo. Mas seu sono era leve e logo ouviu a conversa dos dois.

– Eu disse que ouvir melodias, especialmente ao som de violoncelos. – Levantou Alice e disse do escuro.

– Não, não é possível. Ninguém mais escuta ou toca música aqui desde, desde muito tempo. – Continuou Keena.

– Deve ser um sinal! Olha, lembra daquela vez que você foi atacada por um Quilion e ele não te hipnotizou? Deixou você ir com aquele treco estranho… lembra Keena?

  Os três se entreolharam e Keena arregalou os olhos, lembrando do incidente que o irmão acabara de descrever. Mas é claro! Aquela noite, a noite em que um Quilion poupou a vida de Keena, como se lembrasse dela dos velhos tempos. Ainda tinha deixado para ela algo muito valioso. Mas onde estava?

    – Eu, eu lembro que guardei, só não sei onde.

– Que ótimo! – Disse Peter chutando a parede de pedra da caverna. – Ai!

– Para de bater nas rochas, nervosinho! Sei que está por aqui, só precisamos encontrar.

   Os três começam a procurar pela caverna, olharam debaixo de todas a pedras, paredes e nada.

– O que, exatamente, estamos procurando? – Perguntou Alice.

– Eu não sei ao certo, Ke recebeu o embrulho enrolado na pele viva.

– Pele viva? – Alice achou aquilo bizarro.

– É, geralmente cobrimos algo de valor em pele viva. São como mini tentáculos vermelhos, milhões deles, cobrem toda a superfície até que alguém faça cócegas e eles se desprendem.

– Hum… isso é nojeto, mas, o que acontece se a gente pisar neles? – Perguntou Alice.

– Nada, você não sai do lugar. Só tem a impressão de estar andando por quilômetros, mas só é pele viva tentando sustentar seu peso sobre elas.

– Já sei onde está! – Alice gritou anunciando a descoberta e foi até o fundo da caverna.

  Peter e Keena a seguiram, não entendendo nada. Até que viram a menina segurar nas mãos pele viva, parecia um monte de larva vermelha em cima das mãozinhas da garota.

  Levaram para luz e Keena começou a fazer cócegas sobre a pele, até se desprenderem. Eles caiam no chão como confetes. Aos poucos eles viram o que aquele Quilion havia dado a Keena.

– Papel? Um rolo de papel? Mas o que isso quer dizer? – Perguntou impaciente Peter.

– Não tem nada escrito. – Concluiu Keena.

– E mesmo se tivesse, não adiantaria, quem aqui sabe ler?

– Eu sei. – Anunciou Alice.

  Ela pegou o rolo e então sentiu o papel, parecia umedecido, talvez fosse por conta da pele viva revestida nele. De fato, não havia nada aparentemente naquele rolo. Mas Alice decidiu aplicar uma técnica que vira na tevê uma vez. Pegou o papel, esticou e colocou na frente do fogo. Imediatamente, palavras começam a aparecer no papel, antes vazio.

– Você é algum tipo de ser mágico? – Perguntou abismado, Peter.

– Não, apenas vi fazerem isso no meu mundo. Quem escreveu isso, não queria que qualquer um lesse.

  Quando a mensagem pareceu terminar, Alice esticou o papel sobre o chão e tentou ler o que tinha ali.

– Não entendo, tem palavras faltando.

– Tive uma ideia! – Disse Keena. Pegou uma porção de pele viva e colocou sobre o papel. – Coloque-as onde você acha que deve estar faltando as palavras.

  Assim Alice fez e imediatamente os pequenos seres vermelhos formavam as letras que faltavam.

“Liberte Eric e os Pognos,

Leia as palavras certas,

E restaure a vida”

Quando Alice terminou de ler a mensagem, olhou para Peter e Keena, que pareciam assustados.

– Vocês entenderam alguma coisa e quem é Eric e os Pognos?

– Nosso pai. – Disseram em uníssono.

– Pensei que ele estivesse morto. – Interveio Alice.

– Nós também. Ele estava na batalha contra os guardas do rei, junto com os Pognos, os povos da família de Jem.

– Isso quer dizer que eles estão sendo mantidos como prisioneiros esse tempo todo? E como os Quilions sabiam?

                                                    . . .

  – Não podemos invadir o castelo assim, aquilo é uma fortaleza! Além do mais, Keet é envolvida com algo sombrio, forças ocultas habitam aquele local. – Dizia Peter pela décima vez desde que os três partiram rumo ao castelo de Keet, território 1.

  Alice continuava a ler e reler aquele rolo. Tentava decifrar aqueles comandos. Talvez tivesse perdendo alguma pista.

Depois de meio dia de caminhadas, decidiram parar para acampar.

– O.k. A partir daqui as coisas começam a se complicar, para entrarmos no território 4 precisamos de disfarces. Lá são responsáveis pelas roupas do rei e de toda a família. Fabricam, criam e modelam tudo o que a realeza veste. É um setor só de produção, tem muitas árvores de pigmentos, para as roupas, então cuidado onde encostam ou pisam, as peles vivas são de lá também. – Peter dava as instruções e graças a ele, os três conseguiram roupas usadas pelas pessoas do território 4. Bastante exóticas, Alice admitia. Mas aquilo lembrou os desfiles de moda que tinha em seu mundo, onde ela não entendia o proposito daquelas roupas ousadas e estranhas, será que as usavam de verdade ou apenas serviam de amostra?

   No dia seguinte, entraram no território 4 e logo de cara, Alice percebeu que aquela era uma área diferente, não só pelas pessoas que ali estavam, mas até pela própria vegetação.

Na entrada da pequena aldeia havia um tronco de árvore de aproximadamente 15 metros de altura. Era escuro e não tinha uma folha se quer. Alice ficou olhando com atenção para aquele enorme tronco, aparentemente sem objetivo.

   Quando se aproximou, o tronco ganha vida. Uma centena de olhos estavam voltados para ela.

– Eles, estão olhando para mim? – Sussurrou para Peter.

– Pode ter certeza que sim! Não tem esses troncos no seu mundo? Eles vigiam tudo por aqui. Ideia de Keet. Tudo o que esses olhos observam, ele ver do seu castelo.

– E se alguém tentar furar um olho?

– Não conseguem, sempre que um se distrai, tem mais cem olhando por ele.

   Alice engoliu um nó que segurava na garganta e continuou seu caminho, aqueles olhos a observando era assustador.

                                               . . .

 As pessoas do território 4 eram preocupadas apenas com a aparência. Por serem os alfaiates reais, sentiam-se na obrigação de andarem sempre bem vestidos. Claro que, do ponto de vista de Alice, aquelas roupas pareciam de pessoas do circo e não as últimas tendências para o povo de Clap.

– Por que desse nome? – Indagou Alice.

– Porque eles vivem de aplausos, veja! – Disse Peter.

 Ao dizer aquilo, viram dois habitantes de Clap passarem um pelo outro e baterem palmas, esse era o sinal de que a roupa de ambos estava formidável.

   Passaram pelas grandes caixas com roupas, algumas seriam destinadas ao fogo, pois não tinham atingindo o padrão certo e as outras iriam para o castelo.

Os três embarcaram sorrateiramente na caçamba que seria levada até o território 1. No caminho, como não conseguiam ver uns aos outros, tentaram conversar, pelo menos por meio de fuxicos.

– Alice, as pessoas do seu mundo não estão preocupadas com sua partida? – Quis saber Peter.

– Eu não sei. Tive meu concerto de primavera faz alguns dias e nenhum dos meus pais pôde comparecer.

– Que pena. Se Jem estivesse aqui, com certeza queria ver você tocar e nós também! – Consolou Keena.

– Obrigada.

                                                . . .

– Que frio! Não imaginava que a temperatura daqui era tão baixa.

– Não foi por isso que você fugiu, Ke?

– Deixe de ser bobo! Seu casco está machucando minha perna!

– Desculpe.

   Alice permanecia em silêncio. Pensava em sua família. Naquele mundo novo. Talvez ela tenha caído e sonhado com tudo aquilo. Porque como num sonho, aquela viagem não fazia muito sentido e não tinha muitas explicações. Alice começou a duvidar de sua realidade.

– Peter, pode me dar um beliscão?

-Como? Por que eu faria isso?

– Preciso sentir. Preciso saber que é real o que estou vivendo agora.

– Você acha que não somos reais? Mas eu dei para você uma maça dourada, lembra?

– Na verdade não, Keena. Lembro de um gosto de sonho na minha boca, é esse o gosto da maçã?

– Sim, é esse. Você comeu na noite que chegou.

– Tudo bem.

– Mas já que é assim – Disse Peter inclinando-se para dar um beliscão em Alice.

-Ai! Já senti. Obrigada.

   Os três voltaram a dormir naquele montante de roupas, porém, Alice foi acordada com uma bola de neve jogada sobre seu rosto.

– Shiiu! – Fez Keena.

– Ai! – Reclamou Peter após ser acertado com mais uma bola de neve.

– Shiiu! – Repetiu Keena.

– O que está acontecendo? – Sussurrou Peter.

– Inspeção! – Apontou Keena para a janela coberta com neve.

   Dois guardas porcos parados no portão pediram para ver o que tinha dentro daquelas caixas. E pela aparência deles, não estavam nada contentes em fazer aquilo.

 – O que vamos fazer? – Perguntou Peter.

– Leve Alice para dentro do castelo, dou um jeito de encontrar com vocês lá dentro depois.

– O que você vai fazer, Keena? – Alice estava assustada.

– Vou distrair esses guardas e quando tiver tudo limpo, encontro com vocês. Não tem como nós três passarmos sem sermos vistos.

 Peter e Alice se entreolharam, ambos admirando a coragem de Keena, então deram um abraço nela e a viram partir. Esperaram alguns minutos lá dentro, quando por fim, escutam um barulho ensurdecedor: Keena.

 – Que barulho é esse? – Perguntou um dos guardas porcos.

– Vá, entre! Deve ser uma invasão! – Ordenou o outro. Assim, Peter e Alice foram enviados para dentro do castelo junto com as roupas.

  Conseguiram se esconder no departamento de limpeza, que ficara ao lado do departamento de entregas. Não haviam muitos guardas ali, só alguns serviçais globins.

– Precisamos primeiro resgatar Eric e os Pognos. Eu sei onde fica a entrada para as câmeras de gelo.

– Espera aí, mas e a Keena? – Segurou no braço peludo de Peter.

– Ela vai conseguir nos encontrar, o meu cheiro é inconfundível! – Respondeu confiante o garoto metade bode.

– Pode ter certeza! – Retrucou Alice com as mãos no nariz.

– Esse é o cheiro de um legítimo mensageiro, fique sabendo! – Rebateu. – Agora vamos!

  Os dois seguiram por um enorme corredor com quadros na parede, que segundo Peter, eram dos antecessores de Keet.

A medida que andavam, o corredor estreitava e Alice sentia falta de ar.

– Tudo bem, procure não falar muito, o ar começa a ficar ruim a partir daqui.

– Por que?

– Plantas. A presença da força negativa que habita neste castelo acabou enfraquecendo as pobres plantas e agora, fica ruim de respirar.

                                                   . . .

 Alice tinha caminhado por boa parte do castelo e tudo o que via, era um ambiente tranquilo e aconchegante. As paredes eram de um rosa clarinho e tinham cheiro de orquídeas. A propósito, haviam jarros repletos de orquídeas pelos corredores.

– Achei! – Exclamou Peter. – Me ajuda a abrir Ali.

Eles usaram toda a força que tinham para abrir aquela porta. Era de madeira bem grossa e estava muito inchada, tinha de fazer força para abrir.

Quando finalmente conseguiram, Alice ficou boquiaberta com o que viu:

– Uma sala de instrumentos!

– Deve ser aqui que Keet mantém todos os instrumentos do reino, por isso nunca ninguém achou.

– Eu preciso tocar.

– Não! Você está louca? Vão nos descobrir na hora!

  Alice não deu atenção para o que Peter tinha dito, então avançou dentro daquela sala úmida e mofada. Viu tambores, violões, contrabaixos e por fim, num cantinho, violinos. Estendeu o violino e limpou com sua blusa. Procurou com os olhos o arco, mas não encontrou. Não precisava, posicionou o instrumento sobre seu ombro e começou a dedilhar nas cordas.

   Peter olhava ao redor e não entendia o que estava acontecendo, aquele quarto, escuro e úmido, estava ganhando cor e um aroma agradável. Até que a melodia ficava cada vez mais alta e o quarto ganhando mais vida, os instrumentos antes empoeirados, estavam brilhando novamente. Peter olhou para fora do quarto e percebeu que as paredes rosas, estavam ficando escuras, do contrário do quarto. Agora que não entendia mais nada. Começou a ouvir passos.

– Alice, Alice, temos que ir! – Ele parou de gritar quando taparam sua boca.

Então a garota largou o instrumento.

– Keena! – Correu para abraça-la.

– Eu não sei o que você fez, mas continue! Eu estava lá embaixo, entrei pelo esgoto e alguns guardam iam me vendo, mas daí, começaram a observar as paredes e elas estavam criando rachaduras, então correram dali. Foi o som da música, foi o seu som. Jem já me falou uma vez de que a música é poderosa, deve ter sido isso!

  Alice ficou muito feliz de ouvir aquilo. Agora estavam mais confiantes.

No entanto, antes de saírem da sala, um goblin apareceu e deu um grito de:

– Intrusos! Intrusos!

 E de uma rapidez considerável, guardas porcos cercaram os três. Não tinham saída, era o fim.

Peter então correu para cima dos guardas e tentou segurar todos dando chutes e socos, para que assim as duas pudessem escapar. Keena foi ajudar o irmão e então, quando os dois pareciam quase sem forças, disseram:

– Corra, Alice! Corra e ache Eric!

  A menina correu com o violino na mão, o mais distante e rápido que conseguiu, até descobrir que estava perdida.

Estava ofegante e cansada, então tirou a mochila das costas e beber uma água que tinha ali, tinha gosto de xarope. Lembrou que era a água de um rio onde Keena pegara para ela.

  Depois disso, ela sentou no chão e ficou pensando, perguntando a si mesma o que estava fazendo ali. Foi quando bateu os olhos no seu livro, Alice e o reino dos Forrúcios. Abriu em uma página aleatória e começou a ler.

“Se não lutarmos por um ideal, pelo o que lutaremos? Viva a liberdade, viva a tolerância e acima de tudo, viva a paz e harmonia entre os reinos!

  Todos aplaudiram as belas palavras da jovem Alice, que com bravura enfrentou seus maiores perigos e conseguiu libertar seus amigos. Agora só faltava uma coisa: resgatar Bener, o guardião da passagem secreta para o reino dos Forrúcios, só ele tinha a chave do universo, que levaria Alice de volta para casa. “

– Casa. Ideal. Amigos. Coragem. – Alice repetia as palavras em sua cabeça. – Chega de contos de fadas, estou enfrentando um problema real e preciso salvar os meus amigos e conseguir voltar para casa!

  Levantou e passou a fazer um mapa mental de onde tinha passado. Conseguiu voltar por um corredor que dava acesso as câmeras de resfriamento, segundo Peter, era lá que Keet mantinha os prisioneiros.

 Ao entrar na sala, Alice viu várias pessoas, de diferentes espécies, aprisionadas. Ela olhou para eles de perto, até encontrar um garotinho ruivo, de coroa, congelado.

Seguindo as instruções que encontrou, Alice descongelou o garotinho.

– Olá. – Disse ele com uma voz grave de um homem.

– Oi. Você que é o rei? – Perguntou Alice tentando entender a situação.

– Sim, mas devido o que aconteceu, não estou mais no comando. Meu irmão Keet e eu somos gêmeos, porém, ele se envolveu com seres sinistros que deturparam o que tinha de bom nele, fazendo com que ele se tornasse outra pessoa. Começou a ser negligente com o povo, fazê-los de escravos e proibindo esses de aprenderem a ler.

– É por isso que estou aqui. Precisamos pôr um fim nesse governo cruel. Você me ajuda, gêmeo bom?

– Meu nome é Keel. E sim, jovem, ajudo você. Obrigada por me descongelar.

Keel mostrou o lugar onde os amigos de Alice estavam sendo mantidos. Conseguiram escapar de lá, mas enquanto ficaram comemorando o reencontro, Keet apareceu e apagou todos ali.

                                               . . .

– Onde, onde eu estou? – Perguntava Alice.

– Ela acordou! – Todos na mesa bateram palmas. – Bem-vinda, Alice! Estávamos todos esperando por você, minha querida.

 Alice olhou ao redor e viu que se encontrava em um verdadeiro banquete oferecido por Keet. Eles haviam trocado até suas roupas. Eram extravagantes como as das pessoas do território 4. Os convidados na mesa incluíam Keena, Peter, Eric e todos os Pognos. Mas havia algo de estranho neles. Estavam sorridentes, como se fossem forçados a fazerem aquilo.

– O que está acontecendo? – Perguntou por fim.

– Ora, o que sempre acontece a essa hora! O jantar real. Pode comer, tudo de melhor das minhas terras está a sua disposição. Comam todos!

 E todos, exceto Alice, começaram a comer sem parar. Não diziam uma palavra. Keet era exatamente como Keel, a diferença era apenas nas veias pretas que apareciam de vez em quando no rosto de Keep. Foi aí que Alice notou o colocar que ele usava, era uma joia preta brilhante e não só ele usava, como todos os demais convidados, menos Alice.

  O jantar prosseguiu em silêncio, até que Alice decide rompe-lo.

– Majestade

– Sim, Alice.

– Perdoe a minha falta de tato, mas, se o senhor é tão bom como afirma ser, porque permite que seu povo sofra tamanhas injustiças?

– Que injustiças você se refere? – Keet perguntou com um olhar penetrante.

– Como por exemplo, não serem ensinados a ler ou não aprenderem música ou terem a liberdade de servirem ao senhor de forma mais democrática, podendo escolher o que fazer.

 A cada palavra de Alice, apareciam mais veias pretas no rosto de Keet, sentando na cadeira oposta na ponta da mesa.

– Entendo. Pensei que fosse mais esperta, minha jovem.

– Desculpe, majestade, mas não entendi.

– Você acha, assim como todos eles, que sou um tirano. Um rei insensível que não se preocupa com o povo e agora tenta com seu jeitinho de menininha da superfície, tentar me convencer a ter um governo mais democrático, liberal. Mas me diga, Alice, isso funcionou no seu mundo?

Se me permite dizer, se seus governantes tivessem impedido que as pessoas ingressassem na magia dos livros, artes e música, seria muito mais fácil de controla-las!

– Você é um monstro! Não se pode privar as pessoas de cultura, só para poder governa-las melhor! Saiba que não triunfará, pois a justiça e a liberdade, são natas dentro de cada um de nós, quer saiba seus direitos ou não!

  Keet se levantou da mesa e segurando seu cordão com a pedra negra disse:

– É uma pena que pense assim, Alice. Poderia ficar aqui para sempre, comigo. Num mundo onde todos te obedecem e ninguém falta aos seus concertos. – Keet atingiu o ponto fraco da menina. – Ah, você acha que eu não sei? Eles me dizem tudo, meus olhos estão em todo lugar, graças a Eles, tenho um poder que não sabia que existia.

– Deixe eu ajudar você, Keet. Sei que é bom, essas forças que influenciam você que estão deixando você mau. Você não é assim, eu sei e seu irmão sabe também.

– Não! Como ousa me chantagear! E para a sua informação, filha de Adão, é M-a-j-e-s-t-a-d-e! Tragam o prisioneiro, agora! – Gritou enfurecido.

  Os guardas trouxeram para a grande sala, Keel. O seu lindo cabelo ruivo tinha sido raspado e suas roupas estavam sujas de sangue. Mas ele agarrava algo em sua mão, algo que não largaria de maneira tão fácil.

Alice se aproximou dele e ajoelhou, até ver seu rosto, só conseguia abrir um olho. Então entregou para a menina, um bilhete, que dizia:

“Posso ser pequeno, na verdade, a maioria de nós é, mas não esqueça de que juntos, somos grandes! Seja você, a heroína que tanto admira. “

 Alice leu aquelas palavras, que penetraram fundo em sua mente e coração. Olhou para todas aquelas pessoas a sua volta, o quanto tinham se sacrificado por um bem maior e viu que não eram perfeitas, tinham seus problemas, mas não desistiram de lutar. E assim como eles, ela iria fazer.

– Aqui – Disse Keet erguendo a espada para Alice – Você tem duas opções: Ou mata o traidor do meu irmão ou seus amigos morrem no lugar dele. É olho por olho, você escolhe. Então, é corajosa o suficiente para fazer isso, leitora de livros!

  Alice ponderou naquelas palavras, o salão estava repleto de guardas, não tinha como escapar. Seus amigos precisavam dela, mas Keel também, não podia mata-lo. O que ela faria?

A mesma menina que aguardava o trem na plataforma 15 para a casa, pensou em tudo o que estava em jogo ali. Seus pais deveriam estar preocupados com ela, eles a amavam, só não sabiam muito bem demonstrar aquele sentimento, seus novos amigos, nem a conhecia direito, mas a acolheram e cuidaram dele. Um gesto nobre, que só poderia ser recompensado por outro gesto nobre.

– Alice! Decida logo, é uma escolha simples! – Keet estava impaciente.

 Então Alice pegou a espada e se posicionou de frente para Keel, que suplicava clemência com seu único olho quase completamente inchado. Alice estendeu o braço e golpeou, bem no meio. Afastou-se e viu o rei comemorando o golpe que Alice dera na barriga de Keel.

– Ainda não acabei. – Pronunciou Alice em meio a risada de Keet.

Ergueu novamente a espada e partiu ao meio o colar de vossa majestade. A pedra negra partiu-se em mil pedacinhos e como consequência, uma fumaça negra começou a descer pelas paredes e acumular no corpo de Keet.

– O que você fez? Sua garota traiçoeira, eu mesmo vou acabar! – E antes de completar a frase, Keet explodiu, feito bolha de sabão.

 Todos ali conseguiram se libertar da força obscura e de Keet. Podiam falar livremente agora. Alice correu para Keel, que estava deitado no chão, sangrando um pouco por causa do arranhão de leve que a espada de Alice causou nele.

– Espero que não tenha machucado muito, Keel.

– Não, não pequena! Você fez muito bem, obrigada por salvar minha vida, mais uma vez.

– Ela salvou não só a sua, mas a de todos nós. – Concluiu Keena.

– Eu nunca vou esquecer de vocês, obrigada por me ajudarem a descobrir meu verdadeiro valor no mundo.

  Alice recebeu o abraço de todos ali. E na mesma noite, foi feita uma grande festa no palácio, aberta a todos os territórios.

Com danças e muita música a noite inteira. E mais uma vez, em muito tempo, a paz e a harmonia reinou em todo o território de terras esquecidas. Um lugar desconhecido pelos da superfície, mas não por Alice, uma garotinha que com coragem, conseguiu vencer seus medos e enfrentar as forças do mal para salvar seus amigos.

                                            . . .

Três dias se passaram desde da vitória do povo sobre a tirania de Keet. Agora, depois de tudo resolvido, era a vez de Alice voltar para casa.

Eric junto com Keena e Peter, a levaram para a parte mais ao sul do bosque em Pathos.

– E como é que eu faço? Bato os calcanhares três vezes, fecho os olhos e conto de 1-10?

– Não, será menos complicado do que isso! – Disse com graça, Eric.

– Faça uma boa viagem, garotinha! Não deixe de vir nos visitar. – Abraçou pela última vez Peter, o menino metade bode.

– Foi um prazer conhece-la, Alice. Com certeza, fará muita diferença em seu mundo! Obrigada. – Despediu-se Eric.

Por fim, foi a vez de Keena.

– Vou sentir sua falta, Alice. Você se tornou minha amiga, mesmo tendo a mesma idade de Peter, é bem mais desenvolvida do que ele!

– Ei, Ke! Apesar de que é verdade.

– Obrigada por confiar em mim e me ensinar a ler. Isso vai ser algo de que nunca vou me esquecer, obrigada por me dar asas, Alice. Não deixe de voar nas suas, tem muita coisa para viver ainda. Faça uma boa viagem e não se esqueça de nós, sempre estaremos aqui para lhe ajudar nas suas batalhas!

– Obrigada, Keena. Não vou me esquecer de vocês, fazem parte da minha história agora e com certeza, escreverei sobre vocês e sobre esse mundo fantástico!

   E depois das despedidas, os três tomaram certo espaço de Alice.

– O vento é bem forte, precisamos nos afastar um pouco. – Explicou Eric.

– Vento? Mas que, ah, meu Deus! – Disse Alice ao sentir o vento arrebatador a levar para cima e para cima, junto com as nuvens. Ela olhava para baixo e só via três pontinhos acenando para ela e quando olhou para as folhas gigantes, essas também sorriam para Alice.

                                    . . .

Alice estava na estação nove, plataforma 15, esperando o próximo trem.

Quando ouviu chamarem seu nome.

– Alice, Alice!

– Mamãe, papai, eu estou aqui, estou bem aqui!

                                Fim.

Por: Priscila Quézia Azevedo.

2 comentários em “{Conto} Alice nas Terras Esquecidas

  1. Pri,de onde você tira tanto talento para escrever menina!Sua mente é brilhante Parabéns!!! E com certeza todos nós somos deveras muito valiosos e fazemos toda a diferença especialmente quando agimos a favor de outros com a motivação correta.

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