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{Conto} Como salvar uma vida

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Como salvar uma vida

O vizinho de Luís era um senhor que não gostava de crianças. Ele dizia: “crianças só servem para atrapalhar os adultos! ” Mas Luís não conseguia acreditar como um senhor poderia ser tão mal-educado e resmungão. Mesmo assim, todos os dias no seu caminho para a escola, Luís passava em frente à casa do senhor Fernandez, o homem anticrianças.

– Bom dia, senhor Fernandez! – Dizia Luís todos os dias.

– Saia daqui moleque! – Retrucava o velho.

Até que um dia, Luís decidiu seguir o senhor Fernandez pela cidade, para ver de fato se aquele senhor só não gostava dele ou realmente falava sério sobre seu ódio às crianças do mundo. Esperou o relógio marcar às 8:00 em ponto, pois era o horário em que o senhor Fernandez saia para comprar leite.

Luís seguiu o senhor por toda a rua de ladrilhos, escondendo-se atrás de uma árvore e outra para não ser notado. Além disso, percebeu que o pobre homem sempre andava chutando as pedrinhas que encontrava no caminho. E quando via uma flor, ele simplesmente pisava em cima da angiosperma. (O pai de Luís disse que ele precisava usar mais termos técnicos, porque um dia poderia ajuda-lo com suas pesquisas, ele era dentista, mas ama as flores).

Finalmente, o senhor Fernandez para em frente a um restaurante no centro da cidade. Luís se perguntou se talvez o velhinho pensava em fazer uma reserva no restaurante, mas, quem comeria com ele? Até onde Luís sabia, Fernandez era sinônimo de solitário.

Contudo, entre uma hipótese e outra as quais passavam na mente do jovem Luís, surgiu de dentro do restaurante um homem alto, de cabelos compridos e de blusa xadrez. Quem seria ele? Um filho perdido do senhor Fernandez? Ou apenas uma pessoa aleatória que estava no restaurante àquela hora?

. . .

Na manhã seguinte, Luís repetiu o trajeto. Não houve nada de diferente, Fernandez parava sempre em frente ao restaurante, na mesma hora em que o homem de cabelos compridos saia de lá. Porém, antes de Luís voltar para casa, algo aconteceu.

– Ei, socorro! Alguém ajude! – O homem do restaurante gritava do outro lado da calçada.

Luís virou subitamente em direção dele, que corria para socorrer o senhor Fernandez, caído na calçada. Ninguém parecia notar a cena, ninguém. Luís, desesperado, correu para ajudar.

– O que houve com ele? Ele vai ficar bem?

– Eu não sei, garoto! Agora me ajude a levantar ele.

Luís ajudou aquele homem e juntos levaram o senhor Fernandez para casa. Colocaram ele sentado em sua poltrona, pois ao chegar em casa, o velho havia despertado.

– Quem são vocês? Saiam da minha casa!

– Calma senhor, só queremos ajudar. Vimos o senhor caído lá na praça do centro, em frente ao restaurante. – Explicava calmamente o homem.

Luís ainda não estava entendendo nada. Não sabia exatamente o que estava acontecendo ali, porque minutos depois o homem estava tomando chá com o senhor Fernandez. Eles conversavam abertamente com suas xícaras verdes com chá. Luís estava parado, olhando com atenção para cada um deles. Acabou descobrindo que aquele jovem homem era o garçom daquele restaurante.

Ele contava como eram as noites trabalhando servindo pratos exóticos às pessoas e no final da noite, subia ao palco para uma apresentação. Ele também era violinista. A expressão de contentamento no rosto daquele homem fazia Luís sorrir mesmo sem perceber. Ele era feliz, feliz por ser um garçom violinista. Pensou consigo mesmo sobre aquela experiência, se fosse ele aquele homem, como o seu pai reagiria? Ficaria orgulhoso dele?

Luís não teve tempo de encontrar uma resposta, pois o senhor Fernandez começou a contar a sua história. Aos poucos, o velho ranzinza foi se “desarmando”.

– Meu pai era sapateiro. Mas não foi escolha dele, o pai dele tinha sido e ele teria de seguir a profissão do pai.

– Eu entendo. – Falou o violinista.

– Não interrompa um velho com suas memórias, jovem! – Continuou Fernandez, mas com um ar mais leve. O homem mais jovem apenas concordou com a cabeça e um sorriso.

– Eu admirava meu pai, continuo admirando o homem que ele foi. E se o que eu li na bíblia for verdade, poderei vê-lo novamente aqui. Papai cresceu analfabeto, mas era o homem mais esperto que já conheci. Colocava os doutores na palma da mão! – Fernandez ria das próprias lembranças – Só havia algo em que ele pecava: era dominador.

– Desculpe, mas o que quer dizer? – Foi Luís que interrompeu a prosa dessa vez.

Fernandez e o violinista agora o encaravam ininterruptamente, o que fez Luís engolir um nó que segurava na garganta.

– Significa que, ele não se importava com o que eu queria vida, pois ele já tinha decidido o que eu iria fazer dela: ser sapateiro. – Continuou Fernandez, agora encarando o nada.

– E o que o senhor queria ser? – O olhar do violinista ia de Luís para Fernandez diante a pergunta.

– Bom, quando eu era criança, eu queria ser médico. Eu que cuidava dos machucados das minhas irmãs menores e da nossa avó que cuidava da gente. Eu sentia que daquela forma eu podia salvar não só a minha vida, mas de todas as pessoas do mundo, eu queria ser um grande médico. Doutor Fernandez.

– E porque não tentou isso depois que seu pai faleceu? – O violinista perguntava com uma expressão confusa.

– Porque eu não podia! Malditas as crianças! Eu nunca deveria ter sido criança, assim não teria tido sonhos bobos e não pensaria em salvar o mundo. Teria apenas herdado a sapataria do meu pai e pronto, teria sido um sapateiro contente em vez de um velho infeliz.

Um silêncio dominou a sala. O violinista levantou-se da cadeira e então disse que teria de ir embora. O senhor Fernandez concordou, aquela história toda o tinha deixado cansado. Então, Luís também disse que ia embora para ajudar o pai a catalogar as suas plantas.

Após uma breve despedida, os três se separaram. Antes de Luís seguir para a sua casa, o jovem violinista correu em sua direção.

– Ei garoto! Espere!

– O que houve? – Perguntou Luís cabisbaixo devido o rumo da conversa na casa do senhor Fernandez.

– Nunca desista de seus sonhos. Mesmo que para as outras pessoas pareça bobo e sem importância.

Luís não entendeu plenamente o significado daquelas palavras, mas assentiu com a cabeça.

– Nunca. – Repetiu o homem.

Então foi embora, com o seu andar tranquilo, mas confiante. Ele não chutava pedras e nem amassava flores.

. . .

Naquela mesma noite, Luís contou ao pai sobre a conversa que tivera com o violinista e o senhor Fernandez.

– Luís, pare de inventar bobagens! Esses homens são uns fracassados! Desde quando trabalhar como garçom dá contentamento na vida? E quanto a esse senhor, quanta petulância um sapateiro querer ser médico! Uma profissão com tanta responsabilidade, não é para qualquer um. Agora coma suas leguminosas.

– Sim papai.

. . .

Luís não conseguiu dormir de noite, pensava nas palavras do senhor Fernandez, no contentamento do violinista e no pessimismo do pai. O que será que aquilo queria dizer?

Perturbado com aqueles pensamentos, Luís saiu escondido de casa após o pai apagar as luzes. Primeiro, foi ver como o senhor Fernandez estava. Espiou pela janela da casa e viu um senhor sentado em sua poltrona em frente à televisão, assistindo um seriado sobre médicos e sua rotina no hospital.

Luís ficou triste com aquilo, mas logo sua audição captou um som vindo do final da rua. Caminhou até lá e notou que as pessoas faziam uma fila para o restaurante. Conseguiu entrar pela porta dos fundos e também espiou seu amigo violinista. Ele servia as mesas com uma agilidade incrível e muita força nos braços, mesmo assim, continuava com um sorriso no rosto.

Após servidas as mesas, estava na hora do seu show. Ele tirava o avental e arregaçava as mangas da camisa xadrez e com a leveza de um piscar de olhos, seu arco percorria as cordas do instrumento. Aquilo era tão bonito. Aquele jovem homem parecia conduzir todos ali ao seu ritmo, como se tivesse o coração das pessoas na mão. Ele comandava a vida dela com simples notas.

De repente, toda aquela angústia que Luís sentia, foi se dispersando e seu coração já estava leve novamente. E foi ali que ele teve um momento de clareza: ele queria salvar vidas. Assim como aquele violinista em poucos minutos estava salvando a dele.

Luís descobriu a verdade mais simples da vida, mas também a mais ignorada: seja feliz consigo mesmo e o mundo retribuirá. Ele entendeu o que acontecia com o seu triste vizinho, ele não era mal ou ranzinza porque queria, ele era infeliz porque nunca foi satisfeito com ele mesmo, não amava a si mesmo.

O pai de Luís, podia ser um dentista conceituado, mas sua paixão mesmo eram suas angiospermas! E mesmo ganhando tanto dinheiro, gastava em sua estufa, porque era o que o deixava feliz, satisfeito com si mesmo. Ele salvava a vida das pessoas e do planeta. Sentia-se o pai mais presente e prestativo do mundo, apenas por ensinar o filho a ter ações conscientes.

E por último, o garçom violinista com sua profissão talvez medíocre aos olhos da sociedade, alimentava a alma das pessoas no restaurante servindo-lhes comida e em seguida, alimentava o espírito das mesmas por lhes proporcionar uma boa música, que transmitia paz e momentos nostálgicos para os presentes. Ele salvava duas vezes a vida daquelas pessoas e elas nem faziam ideia disso.

No final da apresentação, todos aplaudiam o garçom com seu humilde violino. Embora pequeno e insignificante, tinha se tornado inesquecível, pelo menos aos ouvidos de Luís, que agora contemplava o amigo.

– Luís! Garoto, está tarde! Mas espero que tenha gostado do show. – O violinista veio cumprimenta-lo logo após guardar o instrumento.

– Eu gostei muito! Você toca muito bem! E consegue deixar as pessoas hipnotizadas com o seu som! – Luís não cansava de elogiar aquele tímido artista.

Depois do restaurante fechar, o violinista se ofereceu para deixar Luís em casa. E assim foram.

– Ei, você, mora no restaurante?

– Moro. Sou o dono do local.

– Você é o dono? – Luís parecia deveras surpreso. Como o dono de um dos restaurantes mais finos da cidade, era ao mesmo tempo o garçom e o violinista?

– O segredo Luís, é salvar vidas, não importa como você faça isso. Não preciso andar em carrões ou dar festas luxuosas que dão prazer momentâneo para as pessoas, em vez disso, apenas uma boa comida e uma boa música.

Assim, os dois foram caminhando rua acima. Luís nunca tinha caminhado em silêncio com alguém, mas aquele silêncio entre eles não era ruim, era bom. Com poucas pessoas se pode ficar em silêncio e mesmo assim se sentir bem.

Quando chegaram em casa, o violinista se despediu e pediu que Luís não saísse mais sozinho aquela noite. O garoto concordou com um grande bocejo. Antes de seu amigo violinista se despedir, Luís lembrou de perguntar:

– Ei, qual é o seu nome?

– Fernandez. Pode me chamar de Fernandez.

– Você… tem o mesmo sobrenome do senhor Fernandez. São parentes?

– Não, apenas compartilhamos do mesmo sobrenome. Caso seja confuso para você, pode me chamar de Pedro, é o meu primeiro nome. – Disse o outro Fernandez com um sorriso no rosto.

Depois disso, foi embora. Luís entrou cuidadosamente em casa e ficou com aquilo na cabeça: Dois Fernandez, mas os dois fizeram escolhas diferentes e tiveram um futuro de acordo com o que escolheram no passado.

Luís então teve uma ideia. Pegou sua velha caderneta amarela e começou a escrever. Não escrevia há muito tempo, mas sentiu que precisava. Escreveu no topo da página “como salvar uma vida” e começou a desenvolver.

“1) você não precisa ser médico para salvar uma vida, na verdade você não precisa de muito. Com algumas palavras, você pode tornar o dia de uma pessoa mais feliz e assim motivá-la a ter alguma esperança. E talvez, quem sabe no futuro, essa pessoa salve a sua vida. O segredo, é não desistir dos seus sonhos, mesmo que ele pareça bobo, ninguém sabe o impacto que pode causar na vida alguém. Então, continue e continue a salvar uma vida.

 

 

 

 

2 comentários em “{Conto} Como salvar uma vida

  1. Que lindo Pri!Realmente na maioria das vezes não nos damos conta como nossas palavras quer sejam construtivas ou destrutivas podem influenciar permanentemente a vida das pessoas.Quão bom seria se usássemos apenas as construtivas,mas,embora não é fácil é possível conforme demonstrado em seu lindo conto.Parabéns!!!

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