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{Resenha} Dois Irmãos – Milton Hatoum

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  Literatura brasileira; 266 páginas; Editora: Companhia da Letras

“Meus filhos já fizeram as pazes?. Repetiu a pergunta com a força que lhe restava, com a coragem que mãe aflita encontra na hora da morte.”

Manaus, em um bairro portuário, com descendência árabe, filhos de Halim e Zana, irmãos de Rânia, assim eram conhecidos os dois irmãos: Yaqub e Omar.

Não foi fácil entender essa família, ou melhor dizendo, não foi fácil entender os dois irmãos. No incipiente da narrativa já somos alertados para a falta de cronologia da história, pois o narrador personagem por vezes nos conta episódios espaçados da vida da família de Halim.

A família morava em uma cidade portuária de Manaus e podemos obervar a movimentação, o comércio e até aspectos culturais das pessoas que ali moravam ou estavam só de passagem. É muito interessante também a linguagem utilizada para descrever algumas cenas ou objetos. A rotina que eles viviam e tudo relacionado com a compra e venda de produtos.

Falemos então dos protagonistas dessa história. Quem eram de fato os gêmeos? Bom, essa é uma pergunta que exige a nossa profunda atenção, porque até agora eu não sei explicar qual era o “mocinho” e qual era o “vilão”. Claro, aí está uma afirmação um pouco geral sobre como rotular os irmãos.

Logo no primeiro capítulo, o nosso narrador relembra a infância dos irmãos. Omar, o caçula( chamado gentilmente assim pela mãe Zana) sempre foi o mais corajoso, atrevido, esperto. Gostava de aventuras, subia nas árvores mais altas, não tinha medo de nada. Já seu irmão Yaqub, era mais retraído, medroso, submisso. Isso me fez lembrar que geralmente nas famílias, temos arquétipos de irmãos assim, um mais tranquilo e outro mais agitado, não é mesmo?

Então, qual era o problema com/entre eles, afinal? É bem comum irmãos terem suas diferenças, terem suas briguinhas, seus xingamentos… atire a primeira pedra quem nunca teve um estranhamento por mais leve que seja com o seu(sua) irmão(ã)! O problema dos meninos, foi que essas rivalidades só aumentavam. E sabe quando os pais tomam partido por um dos filhos? Pronto! A história fica ainda mais preocupante.

Um acontecimento MARCANTE( quando você tiver a oportunidade de ler, por favor, lembre-se da ambiguidade dessa palavra) separou de vez os gêmeos. Um acesso de ciúmes, raiva e inveja fez com que os pais separassem os dois. Mas, que fique claro, ambos era para terem sido mandados para o Líbano, onde o pai havia crescido e só depois voltado para Manaus. Porém, Zana, mais apegada ao caçula, não o deixou ir, apenas Yaqub.( Ok, isso mexeu comigo e talvez, só talvez, algumas pessoas paguem pelo resto da vida por um simples erro no passado, considero esse o caso).

Durante o tempo que passsou fora, Yaqub só fez incorporar seu jeito tranquilo, educado e responsável. Omar por outro lado, cresceu preguiçoso e sem nenhum interesse pelos estudos. Toda essa atmosfera de desigualdade entre os gêmeos foi só aumentando a animosidade entre eles.

Ao avançar nas lembranças do narrador, acompanhamos as confissões e arrependimentos da família. O pai, Halim, talvez por ser um apaixonado, foi o que mais sofreu. Zana não entendia o que tinha errado com os meninos, mas aquela situação lhe doía muito. Rânia ficava dividida entre o amor de Omar e o de Yaqub. Observamos também as opiniões de vizinhos e amigos que acompanharam a história dos dois.

É fato meus amigos, que muita coisa acontece e analisando as peripécias desses dois irmãos, buscamos a mesma resposta à pergunta de Zana no início do livro: “Meus filhos já fizeram as pazes?”. Não é fácil. Até que ponto um ressentimento pode dominar uma pessoa? Vale mesmo apena apega-se a erros do passado e deixá-los dominar de alguma forma a sua vida e suas escolhas no presente?

É uma história curiosa e muito reflexiva. Hatoum me surpreendeu. Apesar de ainda não ter lido nada do autor até então, fiquei curiosa para saber mais sobre seus escritos. E como em uma ambientação aparentemente simples, Manus, cidades esquecidas do resto do Brasil, foi possível resgatar tão vívido interesse nessa leitora. Gostei de aprender como foi, pelo menos relativamente, as vivências naquela época nesse estado tão curioso.

Não deixem com que a aparencia de invejar, as palavras doces ou o jeito relaxado dos gêmeos lhe faça vítima! Esses dois precisam de uma atenção especial, mas sem intimidades! Afinal, quem pode conhecer alguém, de fato?

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