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{Resenha} Perto do coração selvagem – Clarice Lispector

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 Literatura brasileira, 202 páginas, editora Rocco

“Eu toda nado, flutuo, atravesso o que existe com os nervos, nada sou senão um desejo, a raiva, a vaguidão, impalpável como energia. Energia? Mas onde está minha força? Na imprecisão, na imprecisão, na imprecisão…”

Olá! Antes de tudo, preciso me apresentar. Meu nome é Liza, e graças à gentileza da Priscila (minha nova chefe…) vou poder escrever um pouco sobre literatura, companheira que tanto amo, neste blog. Espero que seja uma experiência tão bacana pra quem leia quanto está sendo para mim.

Já que essa é a primeira vez que escrevo uma resenha, decidi resgatar uma leitura muito importante para mim: a obra Perto do coração selvagem, primeiro romance publicado de Clarice Lispector. Foi também meu primeiro contato com algo além de contos da autora, e decidi que daria toda a minha atenção ao livro, pois Clarice já exigia muito de mim desde que passei a ler os contos de Felicidade Clandestina (1971). O título do livro foi inspirado por um trecho de Retrato do Artista quando Jovem, de James Joyce, que diz “He was unheeded, happy, and near to the wild heart of life”.

E é mesmo preciso deixar que sua alma se misture com a do livro, numa procura contínua pelo “selvagem coração” que habita cada um de nós. Clarice nos leva a uma viagem introspectiva pela vida de Joana, que acompanhamos não só em episódios da infância, mostrando-se já uma menina astuta, mas também em sua vida adulta, em que o autoconhecimento é nebuloso e doído. Tudo no livro é íntimo: parece não haver afastamento entre Clarice e Joana, entre Joana e o leitor. Mas claro, essa é só uma impressão pessoal. Cabe a cada um tentar definir a experiência sensitiva que o livro apresenta com tanta intensidade e, por vezes, confusão. Afinal, ao lermos a primeira página já nos damos conta de que estamos diante de algo diferente, talvez dentro da cabeça de uma mulher que volta às sensações de seu passado, talvez na de uma garotinha que vive o presente e nos apresenta a imprecisão de seus pensamentos a cada instante.

Joana, descrita no livro como portadora de traços que “não tinham beleza própria”, é uma mulher que questiona. Questiona o mundo, seu corpo e sua alma. Parece não ter paz, pois a proximidade com que é retratada transmite a inquietação que a mente de uma mulher vive ao lidar com a existência, com o casamento e com a própria noção de identidade.

Quando criança, num dos primeiros capítulos do livro, ela consegue calar sua professora ao perguntar o que é que se consegue depois de ser feliz. Não pude evitar um sorriso em meu rosto ao ler isso, porque é incrível a simplicidade das palavras da criança Joana, ousando perguntar algo que muitos de nós não nos perguntamos na vida toda. E essa é uma pergunta que se transforma ao longo do livro: o que vem depois do casamento, depois do estado que atingimos em certo ponto e chamamos, talvez erroneamente, de felicidade? Joana passa a se confrontar diariamente, numa discussão interna que vai além de seu relacionamento com outros personagens. A descoberta de seu eu verdadeiro é, portanto, um processo que acompanha Joana e o leitor durante toda a obra.

Apesar de ser um livro focado na densidade de Joana, o romance dá vida a personagens tão ricos quanto a protagonista. O falecido pai adoça as memórias de sua juventude num tempo em a garota já havia perdido a mãe, e a tia, espantada com a independência cortante da garota, chama-a de “bicho estranho” e a coloca num internato por não saber como cria-la.  Otávio, marido de Joana, vive dividido entre ela e Lídia, antiga paixão que, tão diferente da protagonista, oferece a tranquilidade que o homem tanto procura e não consegue obter no casamento. O que chama atenção é a liga existente entre todos eles: Joana não consegue passar despercebida por suas vidas. Ela causa estranheza, desconforto, mas não deixa de ser fascinante.

“E também: como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? Como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?”

Cheia de recortes e fragmentos, a história atravessa momentos de descoberta – do amor, da dor, da traição – e não propõe estereótipos ou personagens prontos, pois cada um deles revela traços humanos demais para serem postos em caixinhas. O livro todo, enfim, é difícil de ser “explicado”, e sinto que muitas das minhas palavras são vãs para falar do texto tão maravilhoso que encontrei nessa obra.  A verdade é que Clarice não nos deixa fórmulas ou facilidades, cada linha lida é um desafio e um chamado para algo que vai muito além das palavras.

Em minha opinião, apesar de ainda ser uma ficção, Perto do coração selvagem é extremamente sincero e oferece a quem lê uma chance de se confrontar consigo mesmo. Muito mais do que ação e reviravolta, o livro mergulha na consciência de uma mulher que poderia ser qualquer um de nós. E além de tudo isso, o romance não nega a ingenuidade da infância, apesar de ser extremamente maduro; é lindo o jeito com que Clarice dá importância às pequenas questões, às sensações mais cruas, tão longe de serem explicadas pelo mundo adulto.

Então deixo aqui um convite para entrar no mundo selvagem de Lispector, em que muitas certezas se desfazem para dar espaço a uma vida mais cheia de sentimento. É uma experiência que, para mim, exigiu concentração, várias páginas relidas e muitas pausas durante a leitura, em que eu me perguntava se estava louca por entender Joana ou se minha maturidade poderia mesmo alcança-la. Não garanto que seja fácil, mas uma vez que Clarice nos fisga, é impossível desistir da maravilhosa vivência de simplesmente lê-la.

20 comentários em “{Resenha} Perto do coração selvagem – Clarice Lispector

  1. Parabéns, você tem talento. Sua resenha é semelhante a uma migalha de algo muito gostoso, que nos é dado nos deixando com vontade de querer mais. Continue assim!

  2. Ótimo texto, Liza!!! Um estímulo para quem deseja entrar de vez nesse rico universo da Clarice. Que venham as próximas resenhas, é muito bom poder contar com suas dicas de leitura 🙂

  3. Impressionado com a excelente resenha. Eu, agora, estou me sentindo fortemente instigado a também ler o livro. Parabéns, Liza! Teu talento é inato.

  4. UAU! Que resenha maravilhosa. Liza, te ver lendo tanto na “vida real” e ler seu texto só provam que você leva muito jeito com as palavras.
    Adorei o questionamento que já me fiz algumas vezes de “o que vem depois da felicidade?”… Clarice sempre exige muito da gente, né? Mas ao mesmo tempo ela nos preenche de uma forma incrível! Grandes mulheres, essa Priscila, Liza e a Clarice (:

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