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{Resenha} Olhai os Lírios do Campo – Erico Verissimo

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 Literatura brasileira, 294 páginas, Livraria José Olympio

“Ruminava as suas lutas, as suas humilhações, pensava nas desigualdades da vida, nas injustiças sociais… Se Deus existia, tinha esquecido o mundo, como um autor que esquece voluntariamente o livro de que se envergonha.”

Oi, gente! Hoje falarei sobre minha primeira leitura de Erico Verissimo, Olhai os Lírios do Campo. Meu encontro com essa obra foi por acaso, enquanto eu passeava pelas prateleiras escuras da biblioteca da universidade. Nem sequer lembro o que eu procurava na hora em que achei o livro de Verissimo, mas fui fisgada pelo título, cujas palavras fluem com tanta beleza e me fazem querer repeti-las o tempo inteiro. Olhai os lírios do campo… E só numa conversa com um colega (Igor, se estiver lendo isso, oi) percebi que essas palavras estão no Novo Testamento, que diz “E, quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam”. Minha relação com a Bíblia não é das mais íntimas, mas essa é uma passagem muito bonita, que de alguma forma me toca assim como me tocou o título da obra.

Ao longo da leitura fica claro que esse título tão singelo não está apenas nomeando o livro, mas visitando-o durante a leitura, fazendo com que nosso olhar siga das páginas para a capa, num reconhecimento de que a história de Eugênio, o personagem principal, é uma travessia sofrida cujo resultado, se é que há um, é o desprendimento do compromisso ferrenho de “vencer na vida”. É, entre muitas coisas, um convite à simplicidade.

Mas antes de qualquer outro comentário, é preciso conhecer a história de Eugênio, que é descrita de uma forma bem interessante. Intercalando presente e passado, conseguimos conhecer o crescimento do personagem e todos os acontecimentos que o levaram à situação presente. Com a infância de Eugênio, percebemos que seu crescimento é acompanhado de um profundo sentimento de inferioridade. E ele carrega essa sensação de impotência na sua adolescência e na vida adulta, pintando um quadro desagradável de si mesmo.

“Eugênio se esforçava por entrar na alegria berrante das horas de recreio, dos bailes que os rapazes improvisavam no grande salão de ginástica. Era inútil. Um dia gritara no meio da balbúrdia e ficara o resto do tempo a ouvir o eco interior da própria voz naquele grito sem graça, sem alegria, sem espontaneidade, sem juventude. Envergonhara-se de si mesmo.”

É assim que uma determinação raivosa cresce em Eugênio. Ele resolve que conquistará tudo que não pôde ter durante a vida: dinheiro, prestígio, conforto. E Verissimo nos mostra muito bem a cegueira que toma o homem ao delimitar seu único e desejado destino, ignorando uma reflexão mais profunda de seus próprios desejos.

No meio da confusão de Eugênio, surge Olívia, sua colega na faculdade de medicina, como figura feminina e misteriosa que lentamente o envolve numa relação de amor. É com Olívia que cresce a noção de um Deus que olha por todos, de uma vida que talvez possa ser justa, da beleza perdida num mundo cheio de concreto, em que até os sonhos tornam-se duramente palpáveis, desprovidos da pureza que parecem possuir na infância. A relação tão forte entre Olívia e Eugênio me lembrou um verso de “Soneto do amor total”, de Vinicius de Moraes:

“Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.”

No entanto, mesmo com todo o bem que Olívia representa, Eugênio já está decidido a ter uma vida diferente quando a conhece. Sua vontade está completamente focada no sucesso pessoal que ele espera conquistar ao ficar rico, e a vida simples proposta pela garota no tempo da graduação permanece fora de compreensão para sua alma ainda inquieta e egoísta.

Eugênio consegue, em certo ponto, tudo o que havia desejado desde pequeno. Sua vida adulta é confortável, seu casamento com uma mulher intelectual e rica lhe oferece as facilidades da alta sociedade e ele não é mais o “Genoca” inferior da infância. É nesse momento triunfal que até mesmo Eugênio, cego por tantos anos, percebe que perdeu sua alma no meio do caminho. Olívia, a única por quem sentiu verdadeira ternura, está longe, vivendo uma realidade desconhecida, e seu casamento é uma farsa preenchida por traições e palavras vazias. A partir de uma sensação de vazio, ele passa a olhar para trás com espanto, e o telefonema que recebe no começo da narrativa é o empurrão necessário para que passe a enxergar o mundo de forma diferente.

A segunda parte do livro parece, para mim, o caminho de redenção de Eugênio. É possível sentir a maturidade que começa a alcançá-lo, resultado da dor de perceber que muita coisa se perdeu na sua busca desesperada por ser alguém diferente. Eugênio, que havia esquecido de ser ele mesmo, é atingido por uma nova consciência, ainda confusa, não palpável, mas presente. Nas últimas páginas do livro, percebi que estava marcada por uma impressão de que  esse romance leva Eugênio do individual para o social, fazendo-o notar, ao longo da história, não só suas próprias tragédias, mas as do mundo, as das pessoas que em sua volta amavam, choravam, morriam, vítimas da pobreza ou da loucura inexplicável da vida.

“Começava a tomar a vida pelos ombros e tentava beijá-la na face, como lhe aconselhava Olívia. Era um beijo de sacrifício que ele dava ainda com alguma repugnância, num desfalecimento de medo, violentando a sua natureza mais íntima. Mas havia nesse beijo um estranho elemento de fascínio. E ele sabia – se sabia! – que um dia, não muito remoto, ele ainda beijaria com amor essa mesma vida incoerente, sórdida, brutal e apesar disso, ou talvez por isso mesmo, bela.”

Depois dessa passagem acho que não tenho muito a dizer. Quero deixar para vocês a tarefa de descobrir o que tirou Eugênio de seu sono confortável e o impeliu a dar um beijo na vida, crua e maravilhosa como ela é. O livro está cheio de conteúdo para quem procura Deus, para quem questiona a ambição doentia do mundo em que vivemos, para quem quer sondar a verdade de si e do outro. E a história de Eugênio, tão cheia de humanidade, conquista por oferecer fragmentos de beleza e bondade que parecem escapar de nosso olhar corrido e prático. É o que ando repetindo: olhai os lírios do campo.

5 comentários em “{Resenha} Olhai os Lírios do Campo – Erico Verissimo

  1. Ah! Que resenha! Sinto como se minha carga de “leituras obrigatórias da semana” tenha sido completamente preenchida. Fazia tempo que não lia uma resenha a qual me tomasse a atenção. Muito bem, Liza, agora criei mais ímpeto para alugar esse livro e devorá-lo! Uma belíssima mensagem, precisamos ler livros assim mais vezes!

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