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{Resenha} O Velho e o Mar – Ernest Hemingway

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 Ficção norte-americana, 95 páginas, Folha de S. Paulo

“O velho já tinha visto muitos peixes grandes. Tinha visto muitos que pesavam mais de trezentos quilos e já pescara dois desses, mas nunca sozinho. Agora, só e tão longe da terra, ia defrontar-se com o maior peixe que lhe fora dado ver em toda vida e a sua mão esquerda ainda se mantinha cerrada e dura como a garra fechada de uma águia.”

O Velho e o Mar é o breve e aclamado romance de Hemingway, uma história já muito conhecida e contada no mundo da literatura. Acho que não consigo explicar exatamente o que me fascina nesse livro, se o tom melancólico, se o barulho das ondas que traz… Mas o fato é que fascina de algum modo. Hemingway tem seu estilo característico, e sem muitos floreios narra a luta paciente de um homem contra a força de um peixe maior do que seu próprio barco. A tradução em português foi muito bem feita por Fernando de Castro Ferro, mas quem está aprendendo ou sabe inglês pode tentar ler o original, que é fantástico na lucidez das palavras do autor.

Mas vamos à história. Santiago é um velho pescador que há meses se vê sem pesca, o que faz com que seu fiel ajudante, o menino Manolin, deixe-o para ajudar sua família em outro barco. Mesmo sem continuar a trabalhar com Santiago, o menino vai à casa do homem todos os dias, cultivando uma amizade que une pescador experiente e aprendiz. Essa relação é uma das muitas belezas do livro, porque deixa o leitor sabendo que alguém espera com admiração o solitário Santiago na costa de Havana. E assim como Manolin admira Santiago, este aprecia sua presença e pensa no garoto em seus momentos mais difíceis ao longo do livro.

“– O que você tem para comer? – perguntou o garoto.

– Uma panela de arroz com peixe. Quer provar?

– Não. Vou comer em casa. Quer que acenda o fogo?

– Não, não é preciso.

– Posso levar a rede?

– Naturalmente.

Não existia nenhuma rede e o garoto se lembrava muito bem de quando a tinham vendido. Mas esta era uma cena que repetiam todos os dias. Também não havia nenhuma panela de arroz com peixe e o garoto também sabia disso.”

Santiago, sabendo que precisa se recuperar do longo período de má sorte, parte, ainda na hora fria da madrugada, para o mar. Sua determinação é voltar sem as mãos vazias, e ele necessita fazê-lo. Mas ele não enfrenta as águas e os peixes como inimigos. Percorre com humildade o mar já tão conhecido, enxerga tudo com um olhar atento e sóbrio. Não há, nas descrições da paisagem vista pelo velho homem, esforço pela poesia ou pelo ornamento, e não seria Hemingway se houvesse. E mesmo tentando esquecer o autor, posso dizer que o ambiente pintado no livro condiz muito com a sobriedade do velho pescador. O mundo nos olhos de Santiago é observado com muita calma e lucidez, e suas reflexões, expostas em monólogos, são também fruto dessa simplicidade tão característica do romance.

“Falam do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evita-lo.”

A partir do momento em que Santiago percebe ter fisgado algo, uma batalha de resistência se desenrola entre Santiago e o enorme peixe, que mostra ser maior do que o velho pescador pensava. A espera pelo momento de fisgá-lo dura dias, nos quais o leitor se aproxima do personagem, conhece seus pensamentos simples, suas indagações e um pouco de seu passado, onde costumava ser o campeão das quedas de braço. E assim me pego imaginando o que teria acontecido para que Santiago ficasse tão sozinho, dormindo num pequeno espaço, pescando num pequeno barco, dependendo de seu ainda pequeno amigo. Percebo, a cada página, que não é grandeza que ele procura, mas talvez a força para reafirmar-se homem, ser humano que mata e morre, pescador que ama o mar e precisa, mesmo assim, violá-lo todos os dias. Ele sabe que nasceu homem e precisa sê-lo, assim como o peixe nasceu peixe e cumpre sua sina, fisgado pela isca do velho.

“Mas tenho de mata-lo”, murmurou o velho. “Em toda a sua grandeza e glória. Embora seja injusto. Mas vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de aguentar. Eu disse ao garoto que era um velho muito estranho. Agora chegou a hora de prová-lo.”

Preciso contar que Santiago consegue, com muito esforço, o grande peixe. Mas ele sabe que não será fácil concluir seu trabalho; ele está longe da costa, com um peixe que é muito grande para caber em seu barco, e os tubarões rapidamente irão aparecer. Aí começa a parte que me angustia e quebra meu coração ao mesmo tempo. A luta entre Santiago e os tubarões não é nobre como foi a do peixe, é mais sombria, mais desproporcional, e o homem já duvida de suas forças e suas armas. Mas enfrenta-os até onde pode, receoso de olhar para o que pode ter restado da sua maior pesca.

“Sinto muita pena de termos chegado a isto. A culpa foi minha. Arruinei a nós dois. Mas matamos alguns tubarões, você e eu, e ferimos muitos outros. Quantos teria você matado, velho peixe? Não é sem razão que tem essa espada na cabeça.”

Sua volta para casa, preenchida pela sensação de que a aventura vivida foi um sonho, põe um sorriso em meu rosto de leitora: enquanto os pescadores e turistas se inclinam sobre a pesca do velho, ele dorme em seus papéis de jornal, com as mãos cortadas e a cabeça castigada pelo sol. Mas é um regresso melancólico, pois mostra que Santiago volta a se encolher em sua pequenina morada, talvez descrente de sua força, talvez convencido de sua derrota. Em certo momento do livro o velho chega a dizer que “Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”, mas ainda não tenho certeza se ele alcança sua cama com essa mesma impressão. Que fique essa dúvida para quem for ler esse clássico, banhado de sutileza, mesmo sendo escrito por mãos tão duras como acredito terem sido as de Ernest Hemingway.

A sensação que tenho agora, ao pensar no livro, é que sua prosa enxuta conta o essencial, mas guarda nas entrelinhas toda possibilidade de interpretação e sensibilidade que lá couber. Portanto, aventurem-se também e leiam essa bonita história. Depois de lida, ela fica ecoando na nossa cabeça e pede para ser repetida.

Um comentário em “{Resenha} O Velho e o Mar – Ernest Hemingway

  1. Finalmente posso comentar essa resenha!! Estava aguardando ansiosa por ela e com certeza atingiu as expectativas, “O velho e o Mar” que me aguarde!

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