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{Resenha} Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

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 Literatura inglesa, 184 páginas, Nova Fronteira

“Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse.”

Olá! Hoje vou falar sobre um dos meus livros preferidos (o que não é de se estranhar, já que Woolf me lembra Lispector), Mrs. Dalloway, publicado em 1925. Que felicidade foi ler essa história! Às vezes nos perdemos na seriedade dos livros e esquecemos de apreciá-los com todos os nossos sentidos. Virginia Woolf me resgatou desse estado, e eu acabei me envolvendo bastante no universo criado pela escritora. Não é que seja um livro feliz; pelo contrário, é cheio de melancolia e desconforto, mesmo sendo escasso de ação e dramaticidade. Talvez por esse motivo nem todos sejam fãs de Woolf, cujas obras, especialmente Mrs. Dalloway, podem parecer difíceis ou muito fechadas.

Para falar da minha própria experiência, tive dificuldades no começo. Li o original, apesar de ter escolhido a tradução de Mário Quintana para expor as citações aqui no blog, e eu estava um pouco acostumada com leituras mais convencionais, separadas por capítulos nos quais a voz dos personagens é anunciada. Em Mrs. Dalloway, as vozes se misturam, e com elas as sensações e os sentimentos vividos pelas figuras do livro. Mas depois que me acostumei à estrutura mais solta, não quis mais largar a história, me vi envolvida nos sussurros e por vezes gritos de ajuda que ecoam de cada personagem.

Mrs. Dalloway vai comprar flores ela própria. É a primeira coisa que sabemos, a primeira informação que temos para conhecer Clarissa Dalloway, sendo sua única preocupação, ao que parece, as flores que irá comprar para a festa que está dando à noite. É um dia de junho na Londres dos anos 20, logo após a Primeira Guerra Mundial, e a partir do passeio pela cidade que Clarissa irá fazer em busca das flores, conheceremos sua personalidade e um pouco de sua história por meio de suas impressões no momento em que lhe ocorrem, se posso dizer assim. E ela não é a única a ser seguida pelo leitor, pois logo conhecemos personagens como Peter Walsh, seu romance da juventude, e Richard Dalloway, o homem que lhe deu um sobrenome e um casamento satisfatório.

Tendo feito essa introdução, digo que não é aconselhável esperar grandes reviravoltas ou triângulos amorosos turbulentos. Woolf faz seu livro com outra matéria, e nos oferece a crueza dos pensamentos em seu fluxo caótico, pensamentos que podem ser influenciados pelo barulho dos automóveis, pelo balançar das folhas numa árvore e pelo som de passos numa escada. O livro não é sobre o que pode ocorrer de extraordinário na vida, embora esse elemento possa estar implícito, mas pelo que de extraordinário na vida a partir do momento em que ela nos causa espanto em sua própria realidade. Por isso, no livro, a consciência dos personagens, que vivem num período de suposta calma após a tormenta, vai oscilando entre o são e o louco, entre a vida e a morte.

“Importava então, indagava consigo, encaminhando-se para Bond Street, importava mesmo que tivesse de desaparecer um dia, inevitavelmente? Tudo aquilo continuava sem ela. Sentia-o? Ou seria um consolo pensar que a morte acabava com tudo, absolutamente?”

Essa oscilação é principalmente representada pelos opostos (mas não tanto) Clarissa e Septimus. Esse é um aspecto bastante destacado pelos leitores do livro, e é realmente bonito observar o diálogo entre os dois personagens, que nem sequer chegam a se conhecer. De um lado, Clarissa vive uma vida economicamente confortável, consciente de sua participação ativa na sociedade de Londres. De outro, Septimus Warren Smith, veterano de guerra e destituído de riquezas, jura já não sentir nada depois das coisas horríveis que presenciou, o que é desmentido pelas próprias impressões que tem do mundo, ainda cheias de sensibilidade, mesmo que delimitadas por uma crescente loucura.

“De modo que não havia mesmo desculpa; não tinha absolutamente nada, exceto o pecado pelo qual a natureza humana o condenava à morte, o pecado de não sentir.”

Clarissa, de certa forma, se desprende de suas “felicidades clandestinas” tão vívidas na juventude para ser Mrs. Dalloway, a perfeita esposa e anfitriã, e esse é o papel que ela tende a defender, enquanto Septimus já não sabe se há lugar para ele no mundo em que vive. O que parece ligar essas duas figuras é o desconforto que sentem na sociedade inglesa, um desconforto que pode até ser velado por Clarissa, mas que é escancarado por Septimus. Os dois guardam um espanto, um estranhamento que não só reflete elementos sociais, mas existenciais. Assim, os dois vão representando condições e consciências diferentes, mas sentem um deslocamento que os aproxima.

Esse sentimento, apesar de marcar Dalloway e Smith, parece estar também presente em outros personagens que ganham voz na obra, como Peter Walsh, que se envolveu com Clarissa na juventude, e Lucrezia, a jovem esposa de Septimus. É interessante também observar como os pensamentos de Lucrezia se dirigem a Septimus enquanto os de Peter se focam em Clarissa. Diante da troca de pontos de vista que ocorre no livro, as partes dedicadas à mulher de Septimus e ao admirador da personagem principal também guardam semelhanças. Peter, carregando memórias do tempo em que passou com Clarissa, ainda tenta entender essa mulher que, após 30 anos, já está mais velha, mais calada, mas não menos fascinante.

“E não podia vê-la; não podia explicar-se com ela; não podia esclarecer nada. Sempre havia gente… e ela continuava como se nada houvesse acontecido. Esse era o seu lado diabólico – aquela frieza, aquela dureza, algo de muito profundo que ele de novo sentira naquela manhã, ao falar-lhe; aquela impenetrabilidade. Mas Deus sabia como ele a amava. Tinha ela o estranho poder de vibrar os nervos da gente, como se fossem cordas, sim.”

Já Lucrezia, jovem italiana, luta com seus próprios pensamentos para tentar entender os de seu marido, já que ele se fecha cada vez mais, rejeitando qualquer ajuda. Ela se vê solitária, numa cidade estranha, carregando o peso de um amor com o qual não sabe lidar. É das reflexões de Rezia que surge um dos fragmentos mais bonitos do livro: “To love makes one solitary”. E é lembrando dessa frase que talvez possamos entender um pouco mais a solidão de cada um dos personagens do livro, principalmente a de Peter em relação a Clarissa.

“O amor torna a gente solitária, pensou.”

Diante de um livro tão cheio de conteúdo e rico em interpretações, esses foram apenas alguns aspectos que me chamaram atenção. Mrs. Dalloway é surpreendente por conter personagens que se encaixam, se relacionam entre si mesmo sem se conhecerem, compondo assim um retrato da vida, retrato esse que nunca é preenchido por apenas um modo de enxergar a existência. E é muito interessante ler algo que se desenvolve em apenas um dia na vida de pessoas que escolherão, nesse curto espaço de tempo, como irão enfrentar o espanto de presenciarem o medo, o amor e a solidão. Aproveitem a leitura!

4 comentários em “{Resenha} Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

  1. Só pelas suas impressões e os “quotes” posso imaginar o quão maravilhosa (mesmo que melancólica) seja a leitura de Mrs. Dalloway. Procurarei na biblioteca para ler Vou marcar como uma das minhas resenhas favoritas… good job!

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