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{Resenha} Terra sonâmbula – Mia Couto

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Imagem relacionada   Romance/206 páginas/Editora: CIA das letras

“Eu não estava a deixar o tempo quieto. Talvez, quem sabe, cumprisse o que sempre fora: sonhador de lembranças. um inventor de verdades. Um sonâmbulo como a terra que nascera.”

“As coisas se transformam em realidade quando as vestimos de história.” Essa foi uma frase usada pelo Mia Couto em um seminário realizado em Fortaleza ainda esse ano. Fiquei tão encantada na forma o qual ele usou para falar sobre histórias e como nós devemos nos permitir deixar ser encantados por elas, que pensei nos acontecimentos mais frívolos os quais eu tinha presenciado naquela semana imaginando como poderia transformá-los em histórias para alguém.

Talvez fosse só a forma idílica de Mia falar ou a sua simpatia quase nata, mas fiquei bem curiosa para descobrir como seria a sua escrita, sobre o que falavam seus livros. Por isso, recorri a uma fã de Mia em busca de uma indicação de leitura para esse escritor Moçambicano. Isso mesmo, Mia Couto é do Moçambique, filho de colonos portugueses, mas completamente apaixonado pela terra em que nascera.

Então, tive a prerrogativa do empréstimo de “Terra Sonâmbula”.  E já adianto, não achei uma leitura fácil. Mas não é difícil, não se sinta intimidado, apenas dê um pouco mais de atenção do que talvez costume dar durante a leitura. Isso porque nos deparamos com o português de Moçambique,( vocês já sabem, não é apenas no Brasil e em Portugal que encontramos os falantes dessa língua maravilhosa) então algumas palavras podem causar estranhamento. Sabendo disso, contamos com um glossário no final para a denotação de certos vocábulos. Além disso, Mia usou bem os recursos de contação de fábulas e histórietas da África para compor o livro. Como assim?

Em Terra sonâmbula somos apresentados no incipiente da narrativa a dois personagens: Muidinga, um garoto; e Tuahir, um senhor. O contexto é o de pós-independência já embarcando nas ondas da guerra civil. Percebemos como a guerra, seja de poucas ou grandes proporções, gera desastres inenarráveis para as pessoas. Digo isso excluindo as calamidades físicas porque a atmosfera do livro de fato explora isso, a maneira como vivem/sobrevivem, pensam e o que esperam as pessoas durante uma situação dessas.

Tuahir e Muidinga estão fugindo por uma estrada e se deparam com um machimbombo(ônibus) no meio da estrada de terra. Esse ônibus tinha sido incendiado e os corpos carbonizados ainda encontravam-se lá dentro. Tuahir revelou que seria seguro eles se esconderem lá dentro. Muidinga pede ao velho para que possam enterrar os cadáveres antes e assim o fazem.

No entanto, uma daquelas pobres almas sucumbidas não foi queimada, mas morta a tiros e levava consigo uma mala. Tuahir e o miúdo( como Muidinga é chamado muitas vezes) decidem abrir a mala e encontram além de coisas pessoais do falecido, alguns cadernos como espécies de diários autobiográficos. E quem tinha sido aquele homem? Muidinga estava disposto a descobrir com a leitura daqueles cadernos. E então vamos para o outro pé da narrativa: os fatos narrados nos onze cadernos de Kindzu.

A partir de então, acompanhamos também as aventuras ou seriam desventuras de Kindzu e as histórias das pessoas que ele conheceu. Esse foi um ponto que chamou a minha atenção. Outro fragmento capturado pelas minhas notas no seminário, foi quando Mia falou que “o escritor não é aquele que escreve bem, mas sim quem tem uma história”. Ele “está disponível para escrever e saber ouvir os outros”. Aí está a definição perfeita para Kindzu. Por que digo isso?

Sabe quando você está ouvindo algum relato de um amigo e ele fala algo do tipo: “pois é, um amigo me contou que o amigo dele disse que…” Não parece um tanto duvidoso? A gente às vezes chega a pensar se de fato aquela história aconteceu mesmo naqueles mínimos detalhes. Mas o interessante é que trazendo esse mesmo raciocínio para “Terra sonâmbula”, encontramos uma linha muito tênue sobre o que é verrossímil ou não diante dos relatos dos personagens.

A temática do sono é bem abordada no livro. Muitas vezes me vi tentando descobrir se eu tinha “lido ou entendido certo” ou se realmente era aquilo, por mais sem sentido que pareça à primeira vista, tivesse acontecido. As histórias dentro das histórias de Kindzu nos prendem e surpreendem. No geral tentamos conectar tudo e acaba se transformando num jogo de quebra cabeças mental.

Os capítulos devido sua intercalação, nos dão bastante informação sobre qual é a situação de todos os envolvidos. Embora Kindzu narre fatos desde sua infância, sua vida se encontra no mesmo contexto de Tuahir e Muidinga. Ele nos conta sobre suas andanças em busca dos guerreiros naparama, homens que lutavam por justiça no país. Kindzu acreditava que ele deveria fazer algo nobre para ser um herói. Sua vida foi tão atribulada que talvez essa fosse a sua forma de rendição ou recomeço. Ele tem sonhos e presencia algumas situações que remetem muito aos costumes africanos e suas tradições(lembra sobre a narrativa de fábulas e histórietas, então…) é bem interessante saber sobre as crenças de povos às vezes tão criticados.

São nessas narrativas que encontramos também as muitas ambiguidades do livro. Só a título de exemplo: Kindzu teve um irmão chamdo Vinte e cinco de junho, ou Junito apelidado mais tarde,e esse foi o dia da independência de Moçambique. TALVEZ, (sim, um talvez bem grande porque Mia Couto não nos revelou as “respostas” para as suas associações) o autor quis trazer uma crítica, pois mesmo diante da liberdade cívica, o país ainda apresentasse problemas que precisavam ser resolvidos com demasiada atenção. Tanto é que o próprio Mia, personagem do período da guerra civil, achava que lutar no exército colonial era o que devia ser feito, até ele perceber ou melhor, usarei suas palavras: “apredi que isso era ruim”. ( Obrigada notas, vocês fizeram um bom trabalho)

Percebemos que não só a terra em si, mas muito mais as pessoas estavam desgastadas, físicas e emocionalmente. A perda de entes queridos é copiosamnete lembrado.

“Pode acabar no país, Kindzu. Mas para nós, dentro de nós essa guerra nunca mais vai terminar.”

Por isso, ao acompanhar o destino incerto de Tuahir e Muidinga, sobre quem eles foram o que irão fazer com suas vidas e ao mesmo tempo ir descobrindo o mesmo sobre Kindzu, nos deixa completamente aficionados ao livro. Quando fui pegando o ritmo da leitura me senti em êxtase por ter como benemérito a estesia quase que completa( não serei tão confiante assim) diante de todos aqueles personagens e suas histórias de vida. Valeu muito a pena, confesso que até pensei em inventar uma história a fim de não devolver mais o livro… ( Não se preocupe, devolverei na primeira oportunidade!)

Prefirei não contar sobre os fatos decorridos nos cadernos, pois essa resenha poderia se transformar num estudo/crítica/e o que desse (de forma bem amadora,claro) sobre as histórias das histórias. Uma vez que a minha empolgação na escrita, diferente na fala, não é nada lacônica! Como último pedido, leiam por favor esse livro e aí sim, terei o enorme prazer de conversar horas sobre as minhas maiores impressões e tudo o que Mia Couto me fez refletir em apenas 200 e poucas páginas, que escritor!

 

P.s: Um agradecimento muito especial aos amigos que emprestam livros, em especial livros tão bons quanto esse, os melhores presentes são aqueles que nos trasnformam de algum modo em “livros-vivos” como disse Ray Bradbury em Fahrenheit 451.

 

4 comentários em “{Resenha} Terra sonâmbula – Mia Couto

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