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{Resenha} Enclausurado – Ian McEwan

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 Ficção inglesa, 199 páginas, Companhia das Letras

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda.”

Oi! Hoje apresento pra vocês um livro que pertence a nosso século, mas que parece viajar por outras épocas e ir além do seu tempo. Enclausurado, de Ian McEwan, publicado em 2016. Me interessei por esse livro no começo do ano, quando assisti por acaso uma entrevista com o autor sobre seu novo livro, no qual o narrador seria alguém prestes a nascer. Isso, por si só, já foi suficiente para chamar minha atenção, e desde aquele dia eu mantive o título na minha cabeça, apesar de nunca ter ido numa livraria para compra-lo. Nessa semana tive a chance de matar minha curiosidade. Seu título original é “Nutshell”, que significa “casca de noz”, e a tradução foi feita por Jorio Dauster.

Enclausurado é, para começar, estranho. Ian McEwan nos propõe o mundo do ponto de vista de um feto, que assimila a realidade através das vivências de sua mãe ao longo dos nove meses de gestação. A história é introduzida quando Trudy, a mãe do bebê, já está no fim gravidez, separada de seu marido, John, e unida ao irmão dele, Claude. A epígrafe do livro já mostra a influência que Hamlet, peça de Shakespeare, teve no enredo do livro: “Deus, eu poderia viver enclausurado dentro de uma noz e me consideraria um rei do espaço infinito – não fosse pelos meus sonhos ruins”.

Além de perceber a espécie de releitura de Hamlet, quem leu Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis, provavelmente vai lembrar do narrador defunto, que com ironia e esperteza vai colorindo um mundo que não poderia ser mais real. De forma semelhante, McEwan trabalha com o absurdo de um narrador não nascido, um ser cujo único contato com o mundo se faz debilmente por meio dos sentidos de sua mãe.

“Considero-me um inocente, descomprometido com lealdades e obrigações, um espírito livre, apesar do pouco espaço de que disponho. Ninguém para me contradizer ou repreender, sem nome nem endereço anterior, sem religião, sem dívidas, sem inimigos.”

Confesso que demorei a me adaptar a essa realidade, a aceitar os palpites do bebê sobre os problemas no Oriente Médio e suas próprias inferências de como poderia ser a realidade. A prosa do livro é seca, embora fluida, sarcástica e mesmo assim cheia de conteúdos sobre o mundo contemporâneo e os problemas que assustam a nós, que nascemos e crescemos nessa época. O filho de Trudy, sem ainda ver com os próprios olhos e ouvir com os próprios ouvidos, é, de fato, o rei de seu universo particular, na medida em que vai crescendo na narrativa por meio de suas constatações apocalípticas. As reflexões do narrador acerca da vida prática, nem ainda plenamente presenciada por ele, assustam pela sabedoria e pela madureza.

“Mas eis a verdade mais limitadora da vida: é sempre aqui, é sempre agora, nunca lá e depois.”

Mas o livro não é apenas sobre a projeção que o narrador faz da vida que está prestes a presenciar. Seus sonhos ruins, voltando à epígrafe de Hamlet, estão mais relacionados aos planos que sua mãe tem com Claude, com quem tem uma relação praticamente carnal, destituída de carinho. Os dois se unem, cada um com seus próprios motivos e objetivos, para matar John, pai do bebê de Trudy e irmão de Claude. E durante toda a narrativa seguimos o feto, único e desconhecido cúmplice do crime sendo arquitetado.

Como poderia Trudy imaginar que o bebê que está carregando em sua barriga está escutando tudo o que cochicha com Claude, o tio? Como poderia o casal conceber a consciência mais do que adulta, às vezes mais do que humana de

um ser que, dentro da mulher, tudo percebe? Para o leitor, a mesma dificuldade. Mas é um livro desafiador por esse motivo, e é incrível perceber que a história toda é contada através dessa condição esquisita de preexistência, de ainda não estar completamente no mundo. Talvez seja até difícil de confiar no que é dito, pois as imagens criadas são fruto do que o bebê concebe em sua imaginação, e isso acaba pondo o leitor num exercício mais forte ainda de imaginar como deve ser a realidade dos acontecimentos narrados. Novamente, livro esquisito, esse.

Mas continuamos com a história! A partir do momento em que toma consciência da conspiração contra seu pai, o narrador passa a viver com um dilema que encontrará mais à frente, quando nascer e crescer na família em que foi concebido. Sua mãe e seu tio querem seu pai morto, uma tarefa para amanhã, e com essa percepção ele começa a se perguntar qual deve ser seu papel no meio de tudo isso. Deve aceitar o destino das coisas ou rebelar-se contra o tio que planta um crime odioso na mente de sua mãe?  Deve odiá-la pelo que vai fazer ou amá-la pelo que ela é – inevitavelmente, sua mãe?

“De que estou sendo alertado, o que me é dito para fazer? Não deixe seu tio incestuoso e sua mãe envenenarem seu pai. Não passe seus dias na indolência, de cabeça para baixo. Nasça e aja!”

Um aspecto que me chamou atenção foi a indiferença com que Trudy lida com sua gravidez. De tanto beber, ela dá um conhecimento extenso do mundo dos vinhos ao próprio bebê, embriagando-o. Não chega a nomeá-lo, tudo indica que vai entrega-lo a outra família e seguir seus planos depois de ficar rica com a morte do marido. Os únicos momentos em que parece lembrar da existência da vida dentro de si é quando o narrador decide, com bastante autonomia, chutar a barriga e chamar a atenção da mulher que o sustenta.

É com essa autonomia, apesar de limitada pelas decisões de Trudy, que o bebê vai seguindo dia após dia os planos do crime a ser executado. Seus dilemas crescem na medida em que ele percebe que o dia está chegando, e a percepção do lugar em que vai ser criado e o modo como vai viver, enfim, sua vida inteira, está contemplada na perfeição ou não do assassinato que sua mãe planeja. A questão posta aqui, se é que há apenas uma no centro do livro, não é a execução ou a falha do assassinato, e sim o que ele vai gerar na cabeça de Trudy, na vida de seu filho, nunca por ela nomeado, e no coração sinistro de Claude.

“Sou um órgão de seu corpo, em nada separado de seus pensamentos. Sou parte do que ela está prestes a fazer. Quando chega afinal, sua decisão, sua ordem murmurada, sua manifestação única e traiçoeira parece provir de minha própria boca inexperiente.”

A partir desse questionamento, um universo de possibilidades se abre ao leitor, que acompanha a gestação de um ser anterior a tudo. É engraçado ler um livro de um ponto de vista que nunca saberemos como é. É estranho nos pormos na condição vulnerável de estarmos dentro do útero de nossa mãe, num tipo de proteção anterior a qualquer hostilidade, embora fatalmente ligada aos perigos que a vida oferecerá após o nascimento. Esquisito também mergulhar no mundo líquido do feto, que ouve os ecos da voz de sua mãe e a conhece apenas por dentro, projetando, por meio da imaginação, um mundo em que até as cores são criadas e fantasiadas por esse ser. É, sim, bem bizarro. Mas deixo para vocês essa sugestão de leitura, que pode ser complicada de engolir por boa parte do tempo, mas que pode também ser uma experiência fantástica.

4 comentários em “{Resenha} Enclausurado – Ian McEwan

  1. Já criei simpatia por esse feto só da resenha! Imaginando como algo tão delicado poderia ser cúmplice de uma situação tão bárbara. Fiquei curiosa para saber o que ele fará! Excelente dica, Liza!

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