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{Resenha} O quinze – Rachel de Queiroz

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Resultado de imagem para o quinze livro   Literatura brasileira/192 páginas/ Editora: Jose Olympio

“A faca brilhava no chão, ainda ensaguentada, e atraiu os olhos de Chico Bento. Veio-lhe um ímpeto de brandi-la e ir disputar a presa; mas foi ímpeto confuso e rápido. Ao gesto de estender a mão, faltou-lhe ânimo. O homem, sem se importar com o sangue, pusera no ombro o animal sumariamente envolvido no couro e marchava para a casa cujo telhado vermelhava, lá além.”

“O quinze.” Acredito que esse seja um daqueles títulos de obras as quais a grande maioria das pessoas já teve o contato por meio de conversas, notícias, filmes, livros paradidáticos… enfim. Mas você sabe sobre o que realmente se trata a história? Embora seja uma ficção, acompanhamos o relato de acontecimentos vividos numa época não tão distante e às vezes, ainda presentes no Sertão.

Primeiro, vamos falar brevemente sobre a autora: Rachel de Queiroz. Acreditem se quiser, mas Rachel escreveu “O quinze” aos 19 anos. Eu sempre escutava essa informação toda vez que se falava da obra ou da escritora. Mas na minha mente, esse fato era tão grandioso que Rachel simplesmente sentou e num passe de mágica: surgiu todo o enredo!

Porém, sabemos que tudo, tudo demanda tempo e esforço nessa vida. Claro, até para aquelas pessoas acima da média, é necessário um leve “empurrãozinho” para realizarem seus projetos ou soltarem a criatividade. E de quem parte essa “forcinha” que a maioria de nós recebe? Geralmente, ela vem dos pais. Isso mesmo, papais e mamães tem um papel que é mister na construção de uma pessoa. Digo isso porque a nossa brilhante Rachel também contou com a ajuda dos seus, em especial de sua mãe. Na edição da editora Jose Olympio contamos com algumas informações extras sobre a vida da escritora. Foi aí que eu descobri sobre a intelectual mãe da Rachel, que desde pequena inseriu a filha no mundo da literatura( que exemplo!).

Para quem acha uma perda de tempo ler para as crianças, dar livros para elas e coisas do tipos… está muito enganado! Olha, não chego aos pés de Rachel, mas sou muito agradecida pelas noites infindáveis as quais meu pai lia e inventava histórias para mim. Hoje ele se gaba ao dizer que meu amor pela leitura deve-se ao seu esforço em ler para mim desde a barriga da minha mãe. (Acho que ele está certíssimo!)

Dito isso, vamos para o segundo ponto: as histórias em O quinze. Mas qual é o cenário? No interior do Ceará, num lugar chamado Quixadá. Somos apresentados a Dona Inácia e sua neta Conceição. Aquela, vivia numa fazenda, com muito gado e suas plantações. Esta, era professora na cidade, mas sempre ia visitar a avó. Somos emergidos em todo um ambiente de campo, o trabalho com os animais, a vida simples mas esforçada, o clima quente mas ao mesmo tempo bonito.

Em O quinze lembramos muito das aulas de geografia, com a região do Sertão e sua Caatinga e como um pouquinho de chuva já é o suficiente para transformar a mata branca num verde aconchegante. No entanto, como o próprio título do livro já nos antecipa, vamos ler sobre a seca que ocorreu em 1915. Conceição e sua avó, presenciam as consequências e o sofrimento trazidos pela falta de um recurso tão abundante no planeta, mas muitas vezes esquecidos no Nordeste brasileiro: a água.

Em paralelo com a história das duas, conhecemos a família de retirantes de Chico Bento, que vivia com sua esposa, cunhada e mais cinco filhos. Com a gravidade da seca, ele perdeu o emprego, pois alguns fazendeiros mandavam soltar o gado para eles morrerem pelos os campos. Seria uma despesa a menos. Ele decide então ir com a família para o Amazonas, falavam que lá se conseguia dinheiro por trabalhar como seringueiro. Não obstante, toda essa ida de Chico Bento com a família debaixo de um sol escaldante e sem alimento, é no mínimo angustiante. Tentei me colocar no lugar dessas pessoas, das crianças, sempre reclamando que estavam famintas.

” – Mãe, tô com fome de novo…

– Vai dormir,diacho! Parece que tá espritado! Soca um quarto de rapadura no bucho e ainda fala em fome! Vai dormir!”

Além disso, descobrimos outro fato histórico: o primeiro campo de concentração no Ceará. Era localizado no Alagadiço, região Oeste de Fortaleza. Mas qual era o objetivo e quem ficava lá? Bom, o objetivo era conter os retirantes que chegavam a Fortaleza de cometerem saques ou outras invasões na capital, como já havia ocorrido na seca de 1877 quando sertanejos famintos invadiram a capital cearense.

Rachel descreveu muito bem como era o dia a dia daquelas pessoas flageladas pela seca. O livro nos apresenta a muitas reflexões, sejam sociais, políticas e até ideológicas, haja vista essa problemática da falta d’água ainda ser uma preocupação para muitas famílias no Nordeste. Por isso, O quinze é uma leitura indispensável, não só pela riqueza da obra, mas para nos ensinar sobre um outro cenário que se torna esquecido do restante do território nacional.

2 comentários em “{Resenha} O quinze – Rachel de Queiroz

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