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{Resenha} O Estrangeiro – Albert Camus

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Romance filosófico/125 páginas/Editora Record (Tradução de Valerie Rumjanek)

 

“Tão perto da morte, mamãe deve ter-se sentido liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me sentia pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à indiferença do mundo.”

 

O Estrangeiro é um romance publicado em 1942 por Albert Camus, escritor e filósofo nascido na Argélia. Por ser uma obra tão ancorada em conceitos existencialistas, que focam no absurdo da condição do homem, é sempre válido procurar outras obras que possam ser esclarecedoras para a reflexão sobre seus romances, como o ensaio “O Mito de Sísifo”. Mas, sendo a literatura, como eu acredito, um lugar de liberdade, não há problema algum em ler esse livro sem uma bagagem filosófica. Afinal, o próprio romance pode funcionar como uma forma de introduzir a filosofia de Camus para quem não a conhece.

Terminado o livro, demorou um pouco para que eu saísse do clima e do universo daquelas páginas, tão secas como sedutoras. Secas porque negam todo o sentido que damos à vida, sedutoras porque trazem algumas reflexões que não costumamos fazer no cotidiano, pelo menos não enquanto não nos paramos para perguntar o que somos e o que estamos fazendo aqui. Eu, como a maioria das pessoas que leram O Estrangeiro, não criei uma simpatia por Meursault, o narrador e personagem principal do livro. É difícil, porque ele passa pela vida com uma indiferença assustadora. Suas respostas são quase sempre “tanto faz” e seus atos são guiados pelo instinto e pelas impressões do aqui e agora. Seu corpo é fortemente afetado pelo ambiente, pelo calor e pelas sensações que experimenta, mas sua alma parece estar vedada, cega para o que acontece à sua volta.

É esse personagem que acompanhamos durante toda a história, que, em pouco mais de cem páginas, é dividida em duas partes. A primeira parte é dedicada à descrição da vida de Meursault, seus costumes e sua rotina. Na primeira página (não é spoiler!) já ficamos sabendo que sua mãe morreu. É um começo interessante, que nos coloca em contato com um Meursault que lida com a morte de uma pessoa que é símbolo de amor e cuidado. No entanto, sua mãe morre num asilo, longe física e emocionalmente do filho, e esse é um acontecimento que, apesar de estar no começo da narrativa, produz ecos e acompanha o narrador pelo resto da história.

“Pedi dois dias de licença a meu patrão e, com uma desculpa destas, ele não podia recusar. Mas não estava com um ar muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: ‘A culpa não é minha.’ Não respondeu. Pensei, então, que não devia ter-lhe dito isto. A verdade é que eu não tinha por que me desculpar.”

É a partir desse momento que passamos a observar como é curiosa a relação de Meursault com as coisas que acontecem em sua vida. Em nenhum momento ele derrama uma lágrima pela mãe ou age com desespero. Apenas senta no asilo, na espera pela hora em que irá sepultá-la, e faz isso com uma mente quase vazia, apesar de manter um olhar bastante observador em cada detalhe. Suas percepções do ambiente e das pessoas ao seu redor são vivas, mas não há crenças que o guiem nem consolações que deem sentido ao que ele vive. Ele simplesmente vive, sem se perguntar pelo futuro, sem se arrepender do passado.

“Quis fumar um cigarro na janela, mas o tempo tinha refrescado e senti um pouco de frio. Fechei as janelas e, ao voltar, vi no espelho um canto da mesa com a lamparina de álcool entre pedaços de pão. Pensei que passara mais um domingo, que mamãe agora já estava enterrada, que ia retornar ao trabalho, e que, afinal, nada mudara.”

Esse reconhecimento de que o mundo é o mesmo, faça chuva ou faça sol, haja morte ou vida, torna o narrador estranho para o mundo em que vive, e estranho para quem lê. Eu, pelo menos, estou acostumada a dar um sentido para a minha vida e para a dos outros, procurando estabelecer ligações coerentes e pensando no futuro com certa esperança. Mais do que isso, busco ser compreendida e me encaixar. Mas Meursault é diferente. Ele parece enxergar o mundo sem romantiza-lo ou enchê-lo de expectativa e sentido, ele não mente seu amor pela mulher com quem começa um relacionamento, mesmo que isso a machuque. Ele não exalta a amizade oferecida pelos outros personagens, e não se veste de afeto para ser aceito. Torna-se um estranho, um estrangeiro na medida em que passa a enxergar um mundo sem propósito, afastando-se de tudo que é familiar para o resto das pessoas.

“À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia mas que se ela queria, poderíamos casar. Quis, então, saber se eu a amava. Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava.”

Enquanto lia um capítulo específico do livro, em que o narrador descreve a visão que tem de sua varanda, com a rua movimentada, me deparei com a palavra “tabacaria” e lembrei do famoso poema de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) de mesmo nome, publicado em 1933. Quando fui ler Tabacaria novamente, encontrei uma semelhança interessante entre o poema e o livro, então aqui embaixo vai um trecho que pode ilustrar esse diálogo:

“Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.”

O último verso, em especial, carrega um sentido que se fortalece ao longo da história, com Meursault reconhecendo na vida o absurdo desse destino a conduzir tudo pelo caminho de nada. Durante toda a leitura do poema, aliás, tive a sensação de que o escritor argelino e o poeta português estavam manifestando coisas muito parecidas, com palavras que criam uma correspondência e parecem transmitir um mesmo sentimento.

Mas voltando ao livro, a segunda parte introduz uma virada na vida do narrador. Sendo convidado para passar um fim de semana numa casa de praia, ele acaba cometendo um crime, sendo preso e levado a julgamento. Esse momento é especialmente importante para entender um pouco mais a alma do narrador, e tanto a cena do crime como a do julgamento são narrativas brilhantes. Camus mostra, novamente, a sinceridade dos atos de Meursault, que são guiados pelo instinto e pelo estado imediato em que se encontra o personagem. Ele está imerso no ato de viver, que ganha um caráter cada vez mais absurdo à medida que crescem as consequências inesperadas de suas ações.

“Gostaria de tentar explicar-lhe cordialmente, quase com afeição, que nunca conseguira arrepender-me verdadeiramente de nada. Estava sempre dominado pelo que ia acontecer, por hoje ou por amanhã.”

Durante o julgamento, fica claro que o crime a ser julgado não é o que Meursault fez na segunda parte do livro. Ele está sendo verdadeiramente julgado por sua aparente indiferença em relação à morte da mãe, e assim voltamos às primeiras páginas, nas quais a atitude do narrador causa estranhamento aos que o percebem. De repente, o tribunal foca em detalhes como a ausência de lágrimas de Meursault e o café com leite que ele tomou enquanto a mãe era colocada num caixão. Seu verdadeiro crime é sentir menos do que deveria, ou desnudar a vida e olhá-la em seus olhos cinzentos, destituídos de sentido. E assim, até o fim do livro, sua condenação fica nas mãos daqueles que já o veem como um homem privado de alma. Esses caminhos que o julgamento toma afetam profundamente Meursault e sua consciência, e os últimos capítulos do livro são as respostas que o narrador precisa dar a um mundo cada vez mais absurdo a seus sentidos.

“Mas todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que tanto faz morrer aos trinta ou aos setenta anos, pois, em qualquer dos casos, outros homens e outras mulheres viverão, e isso durante milhares de anos. Afinal, nada mais claro. Hoje, ou daqui a vinte anos, era sempre eu quem morria.”

Bem, acho que já contei demais. Acredito que esse é um daqueles livros que precisam ser lidos pelo menos uma vez na vida, para que possamos fazer nossa escolha: ou amá-lo ou odiá-lo. Para fugir de radicalismos, talvez o meio-termo seja procurar, em suas duras palavras, o sentido que Camus tenta esvaziar da vida.

 

Poema “Tabacaria”: http://arquivopessoa.net/textos/163

 

2 comentários em “{Resenha} O Estrangeiro – Albert Camus

  1. Não conhecia esse livro e nem tampouco o autor, mas fiquei curiosa! Você como sempre me surpreendendo nas escolhas dos livros, é isso aí!

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