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Saudades do Ceará

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Eu li uma palavra recentemente chamada “wanderlust”, cujo significado é o sentimento de alguém que sempre deseja viajar, que tem “sede por viagens”. Foi então que pensei nas viagens minhas… sempre aquele sentimento de liberdade, de não pertencer a lugar nenhum me transbordava. 

Pensar em voltar para casa, para a realidade frenética, para as obrigações com horários e com as pessoas me revirava o estômago. Porém, algo muito esquisito aconteceu nessa última viagem. Em vez de querer “wanderlust”, eu senti saudades da minha casa. Pensei nas belas “pinturas vivas” do entardecer de Fortaleza, aquela brisa suave mas que levanta sempre a minha saia no calçadão da Beira Mar, aquele cheiro de mar.

Percebi que nem sempre está com quem se ama é sinônimo de casa. Talvez “casa” seja um vocábulo de significado físico e não só figurado. Quis sentir o sol queimar a minha pele, o calorzão me fazer prender o cabelo, a água gelada do chuveiro refrescando a “quintura” do corpo.

Tão estranho isso, acho que talvez crescer também significa reconhecer não só quem você é, mas de onde você veio e gostar disso.

Enquanto aguardava por horas copiosas no aeroporto de Congonhas, pude “videar”( em Nadsat quer dizer “observar” – influencias da leitura de Laranja Mecânica antes da viagem) muitas pessoas. Imaginei de onde vinham e quais seríam os seus destinos. Será que estavam indo para casa? Estaríam felizes com o retorno? Ou estavam saíndo de casa? Estaríam tristes com a despedida?

Sentada naquelas cadeiras de assentos azuis almofadados, escutava um cool jazz. Daquele mesmo estilo do seu fundador Miles Davis… E me perguntava: por que tinha de ser cool jazz? O frio estava de matar e eu só queria um forró para esquentar.

Foi quando reparei no que havia pensado: eu gostava de jazz mas não me interessava pelas letras muitas vezes estúrdias dos forrós de hoje em dia. Então como eu poderia preferir algo de que não gostava?

Provavelmente esse tenha sido um embuste mental para enganar a mim mesma. Mas por quê? Não tinha o menor sentido, eu estava mesmo era com saudades de casa. Saudades daquele vizinho amuado a semana inteira que no fim de semana com intrepidez exibia a quem quisesse e a quem não, escutar seu repertório de “avião safado”. Caso eu não estiver enganada, era essa mescla que ele fazia.

Lembro também que na noite anterior ao meu voo, eu dormira com três blusas e dois pares de meias. Claro, um friozinho de vez em quando é bom, mas tentar copiar o clima dos esquimós não era nada agradável.

O termômetro marcava 11 graus, mas eu tenho certeza que meu corpo reagia a uma sensação térmica de uns seis graus.  Nunca senti tanta falta do meu Ceará. Daquele suor acumulado no rosto, no alívio quando de moto com o meu pai, passávamos por uma rua do Centro e o vento geladinho dos ares-condicionados renovava as nossas energias para o restante do percurso debaixo do sol de 30 graus e com senseção térmica de 35 graus.

Porém, nada se comparava a hora do banho. Fiquei imaginando se ainda por conta do frio os europeus não gostavam de tomar banho. Porque se no Ceará tinha vezes que eu tomava uma média de quatro a cinco banhos por dia… no frio de São Paulo dois ao dia já era o suficiente. Nem lembro se suava. Tão estranho, só ratificando.

Como me disse um amigo, eu precisava do calor não apenas para sua função primária, mas também precisava dele para recobrar o juízo.

Mesmo não sendo a primeira, nem a segunda, a terceira, a enfim vez na capital Paulista, eu desejava meu Ceará. O sentimento é o mesmo quando dizem sobre os apaixonados, não param de pensar na pessoa amada, no meu caso, era no lugar amado.

O êxtase se deu quando ao desembarcar no Pinto Martins, vejo aquelas propagandas de shows de humor, o ar mesmo climatizado mas esquentando, a água da torneira no banheiro quase escaldando minhas mãos me deu um frenesi e um último acontecimento para o meu total arrebatamento ao Nordeste foi escutar tambores, um triângulo e aquelas vozes de improvisos vindos da área do desembarque.

Pensei: Isso tudo era para mim? Esse meu Ceará é um bicho arretado mesmo! Perguntei ao meu pai o porquê daquela música ao vivo e ele me disse que teria uma espécie de concurso musical. Mas na minha mente respondi: É não. É porque o povo precisa sentir esse calor latente, essa sensação de estar vivo, de querer bater o pezinho no chão ao som da percussão. Também de querer sorrir e agradecer a Deus por ter nascido em uma terra tão maravilhosa, que mesmo sendo vista às vezes com desprezo e desinteresses, recebe os seus com alegria e entusiasmo plena duas horas da manhã, sabendo que mais tarde no dia a labuta começa cedinho.

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Fotos tiradas mês passado, caso não me falhe a memória em uma sexta-feira, 25 de Agosto.

3 comentários em “Saudades do Ceará

  1. Excelente Pri Continue escrevendo e compartilhando um pouco de suas experiências.
    Essa daí do frio eu ri demais Vcs sofrem com o frio de Sampa em! Rs

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