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Conto: Vovó Bilíngue.com

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Aqui estou eu, em mais uma etapa da minha vida. Com os meus 64 anos, decidi aprender um novo idioma. Talvez alguns me rotulem como “velha louca”, como meu filho, Igor. Não deve lembrar que foi a mesma “velha louca” que o levou a escola no seu primeiro dia e que teve de ficar para assistir a aula junto com ele, pois não parava de chorar.

Bom, mas é assim mesmo. Eu não posso mudar as coisas e nem tampouco o estigma que as pessoas têm sobre os mais velhos. Na verdade, eu não me importava com esses comentários indesejados sobre meu jeito lento de andar e minhas mãos agora, já um tanto trêmulas. Eu não guardava rancor nem mesmo pelo meu filho ingrato.

 

Até aquele dia. (mais…)

Conto fantástico

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  A Rasga- Mortalha 

Vou contar-lhes a minha história, ela não chega a ser interessante caso você não acredite nos mistérios da vida e dito isso, saiba que tudo o que irei relatar, aconteceu de verdade e caso duvide de minhas palavras, “você só precisa escutá-las”.

Eu nasci no subúrbio de uma grande metrópole e nunca reclamei do estilo de vida simples que eu e os meus pais levávamos. Da janela do meu quarto conseguia observar um ninho de passarinhos que era formado em uma árvore em frente à minha janela; acordava toda manhã para ver o progresso da mamãe pássaro com o seu ninho, pois sempre fui fascinado por tudo da criação divina, exceto uma coisa: Eu mesmo.

O fato de ser uma criança com TEA (Transtorno do Espectro Autista) me deixava muito triste, já que não é fácil ser compreendido pelas outras pessoas. Na escola, alguns meninos costumavam fazer brincadeiras comigo que me chateava e machucavam muito. Um exemplo disso é que gostavam de me rodear e baterem palmas ininterruptamente, até eu cair no chão e gritar de dor – outro benefício do meu transtorno. E essa sensibilidade a certos sons me fazia ficar ansioso demais com tudo aquilo que representasse perigo.

Certa noite, entrei no meu quarto e comecei a chorar muito. Fiquei imaginando se algum dia, alguém seria gentil comigo não por pena, mas porque eu poderia ser um bom amigo. Então comecei a olhar pela janela e imaginei os pássaros voando e por alguns instantes, seria capaz de trocar tudo por um par de asas e sair voando para longe de todo mundo.

E como no intervalo de uma lágrima e outra, ela apareceu bem na minha frente. Logo quando a vi, limpei meus olhos e a observei por alguns segundos. Nunca tinha visto uma coruja de perto. Ela era toda branca e tinha olhos escuros compridos, arregalados e fixos em mim.

Já era tarde e embora escura a noite possa ser, ela parecia me enxergar sem a menor dificuldade. Estava parada em cima de uma palmeira e enquanto eu ainda soluçava por causa do choro, ela inclinava a cabeça de um lado ao outro como se estivesse me examinando.

– O que foi? Por um acaso você vai me machucar também? – Lembro de gritar isso para a pobre coruja branca, tão branca que conseguia distingui-la facilmente na noite. Depois do meu grito súbito, ela apenas mexeu o bico e começou a abrir e fechar a boca repetidas vezes como se quisesse me falar algo, mas no último momento desistisse. Até que parou. Fiquei com um olhar confuso para ela que bateu asas e sumiu na escuridão.

Passei a noite deitado com os olhos vidrados no lado de fora, para ver se ela aparecia, mas nada. Fiz isso por quatro dias, nenhum sinal dela. Então, como todas as outras pessoas, aquela coruja havia me esquecido e nem tive tempo para contemplar ainda mais sua beleza e mistério. Após um certo tempo, com ajuda dos meus pais, consegui me esquivar de situações muito conflitantes, fiz isso por percorrer um caminho alternativo para escola junto com meu pai. Dessa forma, evitaria me encontrar com outras crianças que me perturbavam. Memorizei visualmente todo o percurso e até acho que conseguiria fazer isso de olhos vendados.

Certo dia, meu pai não pode me acompanhar, mas decidi ir sozinho, já que era costumeiro o caminho e não teria problemas. O dia estava nublado naquela ocasião, parecia noite, quando escutei uma voz, um tanto rouca dizer: – Oi!

Virei para o lado e avistei uma garota vindo na minha direção. Ela tinha cabelos curtos e lisos, os olhos combinavam com o cabelo, pois eram escuros como a noite. Sua pele branca, fazia-lhe parecer quase uma albina.

– Ah, oi. –Balbuciei.

-Desculpe, não quis assustar você.

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Conto: Quanto vale?

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Maria era uma moça que desde pequena trabalhara para ajudar nas despesas da família, começou em uma pequena empresa de sacos plásticos e embora a natureza simples do local, ela trabalhava com esmero e diligência. Mesmo sendo exigente sob o serviço designado, todos naquele local a respeitavam e a tratavam dignamente. Mas quando tudo ia bem, a empresa faliu e Maria teve de procurar um outro emprego. Visto que era muito competente, responsável e confiável, qualidades essas procuradas por qualquer empregador, Maria logo conseguiu um novo emprego. Nesse ela começou como auxiliar de gerente e após esforço e estudo, conseguiu subir hierarquicamente no seu posto, ao ponto de se tornar gerente geral. E mesmo com todas as noites mal dormidas, os filhos sem ver a mãe, o marido sem o aconchego da esposa, Maria era quem fornecia todo o bem material que necessitavam.

Os filhos reclamavam porque não tinham a atenção da mãe, mas ela sempre prometia que deixaria de trabalhar e compensaria passando o resto da vida ao lado deles. E assim conseguia distrair as crianças de sua ausência. E quando à noite, eles conversavam com a mãe, não conseguiam estabelecer um diálogo propriamente dito, mas sim um monólogo, já que Maria não tinha forças contra o sono por conta do cansaço extremo e da estafa. Trabalhava implacavelmente toda uma semana comercial e mesmo em face de humilhações e desapontamentos, sendo chamada pelos piores nomes possíveis, Maria continuava no “sim senhor, pois não senhor” da sua rotina escravista, que caso a princesa Isabel soubesse desse breve depoimento, talvez estivesse se retorcendo em seu túmulo, ao descobrir que em pleno século XXI existem trabalhos escravos.

Mas o que fazer se apenas Maria poderia dar todo o conforto e sustento que sua família possuía, visto que desde mais nova trabalhava para os outros e nunca para seu próprio proveito. Maria era feliz só em ver os filhos felizes, mas se perguntassem a ela qual o seu maior desejo, ela diria súbita e calmamente: a morte. Isso é fácil de entender, pois na vez que sofreu uma tragédia ao ser posta como refém por criminosos cruéis em busca de dinheiro, os seus preocupados patrões, após vê-la sendo confortada pela polícia, disseram apenas “cadê nosso dinheiro? ”.  Essa pergunta, fez Maria repensar até mesmo na sua existência. O que ela fazia ali, trabalhando para alienígenas, sim, alienígenas, que ao verem Maria passar pela cena deplorável de um assalto e outros funcionários serem amarrados como animais, de forma humilhante, a única e vital preocupação era mais para com o dinheiro que foi levado à guardiã que com tanta devoção o protegia.

Mas, no final das contas, após tantos anos destinados aquele infortúnio, Maria não aguentou ou melhor, seu corpo e mente não suportaram mais o estresse e as ansiedades e por fim sucumbiram em cima de uma cama do manicômio da cidade. E naquele local, todos seus 15 anos de tortura empresarial serviram apenas para pagar os aparelhos que a mantinham viva, porém louca. Os filhos, ao verem a mãe naquele estágio, sentiram uma comiseração inenarrável. O marido, não aguentando ver a sua amada esposa sendo tratada como uma criança triste e doente, precisando de cuidados especiais, cometeu suicídio.

E Maria, nos raros momentos de lucidez que tinha, chorava em sua cama, arrependida de toda uma vida que ela poderia ter tido, mas em vez disso, havia entregado a pessoas que por vezes nem se importavam com ela, só queriam explorar sua mão de obra barata e competente. E enquanto ela passava seus dias definhando naquela cama fria, sendo diagnosticada como louca, seus amistosos patrões, curtiam um fim de semana em Burj Khalifa. Afinal, esse é o mundo capitalista, alguém tem que ganhar e outro tem que perder, mas isso, cabe a cada um escolher. Como vai usar a sua vida e suas aptidões é algo que deve ser levado em consideração, pois na verdade, quanto vale uma vida?

 

Priscila Quézia Azevedo

Conto: Amigo às avessas

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Eu não sei porque eles faziam isso com o garoto, afinal de contas, ele era igual a todos nós. Não tinha nenhuma asa ou algum tipo de cauda como a de um réptil e nem tampouco fazia sons estranhos quando andava ou falava. Mesmo assim, aquele garoto era o bode expiatório da turma.

– Ai como ele é esquisito!
– Por que você acha isso?
– Ah, porque todo mundo diz!
Essas eram as minhas conversas com as pessoas que julgavam sem demais motivos aquele pobre menino. Ele não tinha amigos, porque ninguém queria ficar perto do “esquisitinho do oitavo B”. Eu achava que não tinha nada contra ele, pois nunca tínhamos nos confrontado. Até que um dia, enquanto eu estava no intervalo, ele se aproximou de mim.
– Oi.
– Oi. – Falei arregalando os olhos ao vê-lo na minha frente.
– Que livro é esse que você está lendo?
– Ah, só um livro que meu professor do curso passou.
– Hum, eu sei como é, onde você faz o curso?
Enquanto eu continuava a tímida conversa com ele, me sentia estranha e olhava de um lado para outro tentando ver se não tinha nenhum conhecido por perto, pois embora eu tenha gostado de falar com ele, não queria que pensassem que ele era meu amigo. Os dias iam passando normalmente e a cada vez, “o estranho garoto do oitavo B” ia se tornando uma espécie de amigo para mim. Eu via as outras crianças dizerem coisas com ele, como numa vez onde ele foi elogiar uma garota e ela simplesmente disse para ele “sumir da galáxia”. Em outra, uns garotos se juntaram para bater nele. E eu ouvi eles programando todo o plano, seria depois da aula, esperariam todos saírem da sala e como ele sempre era o último, seria perfeito. E assim aconteceu. Lembro que no dia, fiquei esperando escondida atrás de uma árvore em frente ao colégio e vi quando a gangue mirim saiu e alguns minutos depois o garoto. Estava com os lábios sangrando e escorria o sangue pela sua boca. Ele chorava, meu Deus, como ele chorava. Depois daquele dia, comecei a me sentir tão mal, que só o fato de ir para a escola e encarar tudo aquilo como se fosse normal, era uma tortura. (mais…)

A menina que sonhava em aprender a ler – Parte II

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– Bom, todos nós construímos sonhos ao decorrer da vida, mas na maioria das vezes conseguimos concretizar apenas alguns deles. Mesmo assim, isso não quer dizer que devemos desistir, porque um dia, com educação e leitura, podemos alcançá-los. – Respondeu a professora ao aluno.
– Mas como a senhora tem certeza disso?
A professora deu um sorriso bobo diante da pergunta, então falou:
– Porque um dia, eu conheci uma menina que tinha um sonho de aprender a ler. E ela acreditava que a leitura podia libertá-la do mundo triste e sem esperanças que vivia. Mas por ser pobre, a menina não podia frequentar a escola e por isso não sabia ler.
– Coitadinha professora! Mas aí, ninguém ensinou a ela? – Perguntou comovida Lílian.
Nessa hora, a professora parou e observou a reação dos alunos. Seus rostos estavam tristes e preocupados, então ela os indagou:
– E o que vocês acham crianças, ela merecia ter uma chance de aprender a ler?

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A menina que sonhava em aprender a ler – Parte I

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Em uma rua sem número, morava uma menina sem nome, cujo desejo era aprender a ler. Pois desde pequena ouvira que a leitura pode transportar as pessoas para um novo mundo, longe da realidade, e ela precisava disso.
Dividia uma pequena casa de dois cômodos com sua mãe e mais cinco irmãos. Nunca pode ir à escola, visto desde pequena ser obrigada a trabalhar para ajudar no sustento. Assim como a filha, a mãe não tinha nenhum estudo e por isso achava não ser algo importante.
– Vá menina! E é bom não voltar sem trocados! -Ordenava sua mãe toda manhã.
– Sim, mamãe. – Respondia obediente a filha.
E assim seguia a menina sem nome, por caminhos estreitos e sujos,  a fim de encontrar algo novo que lhe desse esperança. Trabalhava varrendo o chão de uma lanchonete em frente à uma escola. E todo dia ela imaginava como poderia ser aquele lugar.
– Ei menina, me traga guardanapos! – Falava um professor que toda tarde tomava café ali.
– Aqui.
– O que você está olhando? -Retrucou ele ao perceber que a menina olhava atenta para os papeis sobre a mesa.
Ela apenas abaixava a sua cabeça.
– Sabe o que é isto?
– Não, não senhor. Eu não sei ler.
– Sorte a sua! Não precisa corrigir essas benditas provas.
– Me ensina. – Clamou a menina.
– O que, a ler? – Deu uma risada irônica diante do pedido. -Não tenho tempo, se quiser uma aula particular, cobro 50 reais.
Mesmo diante da resposta, a menina não desanimou e trabalhou incansavelmente dia e noite por três meses, até que conseguiu juntar a quantia exata. E numa bela tarde, estendeu a mão e disse:
– Me ensine a ler.
O professor, ao ver o dinheiro em sua frente, não conteve as lágrimas e deu um abraço na menina. Porque ela, sem a menor instrução e de poucos meios era uma aluna com sede de conhecimento. Então, ele se propôs a ensinar tudo o que sabia para a menina.
Depois de duas semanas, a menina fez uma descoberta incrível. Pegou os papeis velhos que sua mãe mantinha guardado e leu em alto e bom tom:
– Meu nome é Laura. Nasci em 28 de novembro de 2001. – pronunciou a frase inicial da sua certidão de nascimento.
E depois leu o nome de sua mãe e irmãos. Saiu correndo de casa e parou em frente a placa da sua rua.
– Rua José Emanuel,301.
A menina que antes estava presa em um mundo triste e injusto, agora podia enxergar um novo dia, um mundo novo que podia chamar de seu,porque a leitura abriu a sua mente e desde então, a menina nunca mais parou de ler.

 

Priscila Quézia Azevedo

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